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Atalhos espirituais e a possível restauração da ordem

P. Brueghel. Cego guiando cego. (detalhe) 1568. "Porventura pode um cego guiar outro cego? Não cairão ambos no barranco?" (Lucas, VI, 39).

Em meio ao tsunami ideológico no qual nossa cultura tem sido devastada – movimento gay, ateísmo materialista revoltoso com as raízes cristãs de nossa tradição, cientifismo, assistencialismo de Estado, legalização e uso desenfreado de drogas, desarmamento do cidadão de bem, apologia do crime etc – eis uma pergunta: quais as raízes disso? Pra acompanhar a metáfora, qual o epicentro do abalo sísmico originário de tanta balbúrdia e deserdem espiritual?

Se é relativamente fácil responder isso no caso de um tsunami real, aliás, não só responder com precisão cirúrgica, mas traçar detalhes da previsão de um evento dessa magnitude, já não podemos dizer o mesmo quando a coisa se refere à vida de uma cultura.

Quando olhamos para a cultura e tentamos encontrar justificativas de seus tormentos espirituais, os instrumentos nos escapam. Há problemas em filosofia que nunca parecem morrer, não seriam problemas típicos da própria natureza do homem? Há muitos esforços na tentativa  de esconder a sujeira para debaixo do tapete ou de encontrar atalhos.

No entanto, Eric Voegelin, Albert Camus, Thomas Mann, Aleksandr Solzhenitsyn, entre tantos outros, foram homens de coragem, cuja vida foi posta à disposição para tentar responder esse tipo de pergunta: afinal, qual a origem da crise do Ocidente? Não teria Platão enfrentado uma análoga pergunta quando sua Atenas matou Sócrates, isto é, a filosofia? Ou Santo Agostinho, tentando encontrar racionalidade na barbárie profunda da irracionalidade da sua devastada Roma? Essas analogias históricas são possíveis, mas arriscadas...

No nosso caso, tanto para Eric Voegelin, tal como Solzhenitsyn, a desordem espiritual espalhada na vida ocidental refletem a alienação do homem diante do fundamento transcendente da realidade. Ou seja, deslocamos a crença do amor de Deus ao radical amor do homem a si mesmo. Comemoramos isso como a melhor de todas as nossas conquistas! A ideia de que a felicidade do homem ou a realização da humanidade do homem só pode ser alcançada sem a submissão de uma autoridade mais elevada do que o próprio desejo humano.

Enfim, tudo isso para dizer que acabei de ler o excelente livro recém publicado pela editora É-realizações sobre Eric Voegelin, do Micheal P. Federici, Eric Voegelin. A Restauração da Ordem. Já o conhecia na versão em inglês, e acredito que esse livro é uma das melhores e mais poderosas introduções à colossal obra de Voegelin.

Ler Voegelin e ao mesmo tempo acompanhar os acontecimentos do nosso sofrido dia-a-dia das fantasias políticas nos dá verdadeira impressão de que vivemos em mundos paralelos. Voegelin fala outro idioma. Em meio a tanta desordem é raro compreender uma voz forte com nitidez. Mas o esforço vale a pena!

Essa nota é esclarecedora para mostrar como ele sobrevoa e buscava muito mais a fundo os problemas que hoje nos atormentam, seu antidoto filosófico busca os fundamentos da compreensão da desordem do espírito muito além de qualquer remédio e terapia liberal!

“Voegelin, como Solzhenitsyn, teve de lutar com os que negavam que a desordem social no século XX era sintomática de uma crise civilizacional mais profunda. Ele também enfrentou o problema que muitos que reconheceram que a crise existia caracterizaram mal, ao deixarem de identificar-lhe as raízes espirituais. Na verdade, o discurso de uma crise espiritual é tipicamente considerado impróprio a uma sociedade liberal progressiva em que a vida espiritual é tratada como matéria de escolha pessoal e não tem lugar nos negócios públicos. Muitos críticos culturais parecem não querer considerar a conexão entre institucional e falência espiritual. Em consequência, a análise e resposta prescritiva deles são moldadas pelos mesmos fatores ideológicos que causam a crise. Muitos intelectuais liberais fazem objeção ao totalitarismo, mas não conseguem perceber que sua própria disposição ideológica comunga com um fundamento comum ao comunismo e ao nazismo.” (Federici, p. 50)

Voegelin aponta que o progressismo liberal e as ideologias totalitárias como o comunismo comungam da mesma tradição intelectual e são, de fato, pontos diferentes do mesmo continuum ideológico. Ele explica que “não se pode negar a consistência imanente e a honestidade da transição do liberalismo para o comunismo; se se entender o liberalismo como a salvação imanente do homem e da sociedade, o comunismo é certamente sua expressão mais radical; é uma evolução que já fora antecipada pela fé de J. S. Mill no advento final do comunismo para a humanidade” (NSP, p. 175)

Em outro contexto, escreve ele que “as pessoas se chocam com os horrores da guerra e com as atrocidades nazistas, mas são incapazes de ver que esses horrores não são mais do que uma tradução, ao nível físico, dos horrores intelectuais e espirituais que caracterizam a civilização progressiva em sua ‘fase pacífica’”. (OH III, 220)

A verdadeira linha divisória na crise contemporânea não está entre liberais e totalitários, mas entre os transcendentalistas religiosos e filosóficos de um lado e os sectários imanentistas totalitários e liberais do outro lado" (PE 1953-1965 p. 22)

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