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Os Furos de Olavo

the-gray-forest-1927Há quem me julgue rancoroso, ressentido, invejoso. Não se trata disso, em absoluto. Trata-se apenas de oferecer, a quem se interesse, uma perspectiva um pouco diferente da obra e da atividade pedagógica de Olavo de Carvalho. Ele sempre se notabilizou por ser um “temível polemista”. Um homem corajoso, à margem do sistema, da academia, da crítica. Ele se orgulha disso. E por isso mesmo me soa tão estranho que, quando se trata de avaliar seus textos ou sua atividade pública, os alunos, leitores ou críticos tendem a se comportar de forma tão passiva. Vejam só o que ele escreveu desta vez, e vejam se não há qualquer coisa estranha aí:

“Confesso e admito que, excluídos dois ou três livros recentes, minhas opiniões sobre a escola analítica são baseadas em impressões de leitura de quarenta anos atrás. Mas quarenta anos atrás essa escola já tinha setenta anos de existência e, se levou mais tempo do que isso para melhorar, a melhora não atenua em nada o vexame anterior”.

Algumas coisas me chamaram a atenção.

A primeira delas é a seguinte: para um filósofo que incentiva seus alunos a uma espécie de “voto de abstinência em matéria de opinião” – ou seja, antes de estudarem com afinco, meditarem, metabolizarem as idéias, os leitores e alunos não devem formar opiniões contundentes sobre assuntos filosóficos –, ele demonstra pouco apreço pelo próprio método. Como se vê, Olavo prega aquilo que ele mesmo, aparentemente, nem sempre praticou, já que formou sua opinião sobre a Escola Analítica baseado em “impressões de leitura de quarenta anos atrás”. Isso não se parece em nada com a imagem de pesquisador incansável e criterioso que ele tanto quer passar como modelo.

Em seguida, note-se que, segundo Olavo de Carvalho em outro post, será preciso um exército de alunos diligentes, ao longo de aproximados quarenta anos, só para que seja feito o levantamento ‘material’ de sua vastíssima obra (ao dizer isso, ele deixa subentendido que será preciso o dobro de tempo para que se compreenda ‘qualitativamente’ seus feitos). Mas o engraçado é que ele também diz que, quando tomou conhecimento da Escola Analítica, esta já existia há setenta anos. Isso quer dizer que setenta anos naquele tempo, mais os quarenta subsequentes, podem ser compreendidos com apelas algumas “impressões de leitura” e a “leitura de dois ou três livros mais recentes”?

Aliás, ele gosta desses números exagerados. Em alguns artigos disse que a hegemonia esquerdista não é obra de improviso, mas tarefa de trinta anos, que levaria outros trinta para ser neutralizada. Hoje sabemos que será preciso quarenta anos para sequer recolher e organizar os escritos do Olavo, sempre “espalhados em apostilas sem revisão do autor, e gravações”. Convenhamos: essa é uma forma … Continue Reading ››

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Ideias e consequências

a pedra da loucura

1. Olavo de Carvalho afirmou que o que eu escrevi no post anterior “não modifica em nada” o que ele disse sobre Peirce em seu artigo para Imbecil Coletivo. Uma vez que, segundo ele, “a filosofia de Peirce continua conhecida, em público, sobretudo pela tese que ele critica”.

Primeiro, quando você critica um filósofo por aquilo que o "público geral conhece" -- e não acompanhado cuidadosamente o próprio desenvolvimento da filosofia através dos textos e do debate em que ele está inserido e, de fato, se desenvolveu ao longo da história das ideias --, então você não está "criticando o filósofo", você está criticando a vulgarização daquela filosofia.

E, mais, o que é pior, torna-se, inclusive, um dos responsáveis por essa vulgarização diante do público geral. Portanto, bate num espantalho e "vende" aquela filosofia como se fosse coisa de gente “retardada”. As centenas dos leitores incautos replicam essa imagem distorcida aos quatro cantos e, ao invés de elevar o nível do debate filosófico – como presunçosamente pretendido –, a suposta crítica torna-se propagação de palpitaria e baixaria.

O próprio Olavo de Carvalho, numa entrevista recente, comentou a dinâmica desse processo acerca de sua própria obra:

“Tenho uns trinta e seis mil “seguidores” no Facebook (que só são seguidores num sentido ótico da palavra), uns cem mil leitores espalhados pelo Brasil e talvez uns duzentos mil ouvintes e espectadores no Youtube. Mas, de todos esses, só uns dois mil – menos de um por cento – são meus alunos no Seminário de Filosofia, e estes, a pedido meu, evitam participar de discussões na internet, só o fazendo quando é no quadro de alguma atividade profissional ou intelectual mais sistemática [...] Por isso, o que acaba aparecendo superficialmente como “discussão” das minhas ideias é justamente o que vem do público mais geral, que não tem comigo nenhuma relação de aprendizado e que me chama de “professor” apenas por gentileza. Não tem sentido esperar que esse público tenha uma compreensão das minhas ideias no nível que a têm os meus alunos. Deles vêm, com frequência, perguntas mal formuladas e opiniões toscas, que refletem um esforço de aprendizado sincero mas ainda muito incipiente. Alguns observadores maliciosos ou burros, no entanto, nada sabendo nem querendo saber dos meus cursos ou dos meus alunos, fazem questão de tomar justamente esse público geral como amostra típica dos resultados do meu ensinamento. É uma deformação caricatural monstruosa. Todo escritor ou filósofo tem um público geral que o aprecia sem compreendê-lo muito, mas tem também o direito de ser julgado pelos seus escritos e pelo seu ensinamento direto e não pela resposta incontrolável que obtém de um público difuso”  (destaques são meus).

Eu não estou defendendo Kant ou Peirce das … Continue Reading ››

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Elementos DA MESMA DESCULPA

numeros-e-constelacoes-em-amor-com-uma-mulher-joan-miroEscrevi dois posts sobre uma parte da crítica do filósofo brasileiro Olavo de Carvalho acerca de outros dois grandes filósofos: Kant e Peirce. São relativamente famosas as observações críticas de Olavo a esses dois ícones da história da filosofia moderna e contemporânea.

1. Em Nota sobre Charles S. Peirce, publicado no livro Imbecil Coletivo, Olavo afirma: “E Charles Sanders Peirce gerou William James, que gerou John Dewey, que gerou Richard Rorty, que, desembarcando no Brasil, gerou entre os nativos o maior frisson e confusão mental. Remontemos às origens” (p. 68).

Todavia, sem prejuízos, essa sentença poderia ser escrita exatamente assim: “E Charles Sanders Peirce gerou William James, que, de um lado, ajudou a gerar Edmund Husserl e Ludwig Wittgenstein, e, do outro, gerou Henry Bergson e Eric Voegelin, que, quando publicado no Brasil, gerou entre os nativos da alta cultura o maior frisson e confusão mental.” Ou seja, eis o problema de remontar, por galhos tortos, às origens".

A primeira passagem da crítica já denuncia a falta de contato com a obra de Peirce e o descuido da análise crítica de Olavo. Afirma o filósofo brasileiro: “Peirce diz que o único significado de uma ideia reside nas consequências práticas que dela se possa inferir. Esta tese é o miolo da sua filosofia e o que origina sua denominação de pragmatismo: pragma, em grego, são os assuntos da vida prática” (p. 68).

Uma vez que basta comparar a sentença formulada por Olavo com a sentença original da “máxima pragmática” escrita por Peirce em seu famoso ensaio e 1878, How To Make Our Ideas Clear: “Considere quais efeitos, que possam concebivelmente ter consequências práticas, concebemos que o objeto de nossa concepção tenha. Então, nossa concepção desses efeitos é o todo de nossa concepção do objeto” (Consider what effects, that might conceivably have practical bearings, we conceive the object of our conception to have. Then, our conception of these effects is the whole of our conception of the object).

Notem bem o que o próprio Peirce tem a dizer acerca desse suposto “miolo de sua filosofia” numa carta enviada a William James (amigo e crítico de Peirce): “Desejo dizer que, apesar de tudo, o pragmatismo não resolve nenhum verdadeiro problema. Mostra apenas que pretensos problemas não são problemas reais. [...] não existe nada mais salutar do que deparar com problemas que ultrapassam nossa capacidade, o que proporciona, devo dizê-lo, a sensação deliciosa de ser embalados pelas águas sem fundo [...] parece-me que vocês todos têm uma sombra na retina mental que não deixa ver o que os outros veem e que tornaria o pragmatismo mais claro” (Collected Papers. 8.253).

Portanto, para quem já teve contato com a obra de Peirce, sabe que o “miolo da sua filosofia” não é … Continue Reading ››

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Religião, Ciência e mais algumas coisas sobre William James

Meus assíduos leitores já puderam perceber minhas novas aventuras na obra de William James. Pra quem freqüenta o site, ou me conhece, sabe que ando empolgado nos estudos desse pensador norte-americano.

Não abandonei os clássicos e já me perguntaram se eu teria abandonado Eric Voegelin. Não, não abandonei, suas obras, aos poucos, vão se hospedando nas melhores prateleiras da minha biblioteca.

Na verdade, preciso confessar uma coisa, estou estudando William James justamente por causa do Voegelin. Depois de ler e reler suas Reflexões Auto-biográficas, ter escalado a montanha Ordem e História, minha ficha caiu para um detalhe: não dá pra compreender Voegelin sem antes compreender sua trajetória intelectual. Os pragmatistas americanos, Peirce, James, Dewey e Santayana, foram decisivos.

Diferentemente do que julga Olavo de Carvalho, Peirce não só gerou James, gerou igualmente Voegelin. Julgar James, ou em geral os pragmatistas, por ter gerado Richard Rorty ou, sei lá, Cornel West, é cometer a maior das falácias genéticas. Mas deixemos esse assunto para outro post, prometo que comentarei esse deslize do Olavo.

O assunto desse post é outro. Gostaria de partilhar um pequeno texto do William James a respeito do lugar da Ciência no que diz respeito à experiência religiosa em geral. Não tenho dúvida, muitos perceberão que a afinidade com este filósofo vai além de um mero acidente biográfico.

Em certa altura do seu As Variedades da Experiência Religiosa - livro fundamental para compreender não só o método mas também como James coloca os pingos dos devidos "is" quando se trata da discussão entre Ciência e Religião - diz James:

“Acredito que as pretensões do cientista sectário são, para dizer o menos, prematuras. As experiências que temos estudado [as religiosas]... mostram francamente que o universo é mais multiforme do que qualquer seita admite, incluindo a científica. No fim de contas, que são todas as nossas confirmações senão experiências que concordam com sistemas mais ou menos isolados de idéias (sistemas conceituais), que nossas mentes construíram.

"Mas, porque, em nome do bom senso, precisamos presumir que apenas um desses sistemas de idéias há de ser verdadeiro? O resultado óbvio de nossa experiência total é que se pode tratar o mundo de acordo com muitos sistemas de idéias; e que ele é assim tratado por homens diferentes, e dará, cada vez, algum tipo de proveito característico, a quem o trata, ao mesmo tempo que outro tipo de proveito tem de ser omitido ou adiado.

"A ciência nos dá a todos a telegrafia, a iluminação elétrica e a diagnose, e consegue prevenir e curar algumas moléstias. Na forma da cura psíquica a religião nos dá a muitos de nós serenidade, equilíbrio moral e felicidade; e previne determinadas formas de doenças, como faz a ciência, ou até mais, com certa classe de pessoas. É evidente, portanto, … Continue Reading ››

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A Lógica do Abortismo

por Olavo de Carvalho

Fonte: Diário do Comércio

O aborto só é uma questão moral porque ninguém conseguiu jamais provar, com certeza absoluta, que um feto é mera extensão do corpo da mãe ou um ser humano de pleno direito. A existência mesma da discussão interminável mostra que os argumentos de parte a parte soam inconvincentes a quem os ouve, se não também a quem os emite. Existe aí portanto uma dúvida legítima, que nenhuma resposta tem podido aplacar. Transposta ao plano das decisões práticas, essa dúvida transforma-se na escolha entre proibir ou autorizar um ato que tem cinqüenta por cento de chances de ser uma inocente operação cirúrgica como qualquer outra, ou de ser, em vez disso, um homicídio premeditado. Nessas condições, a única opção moralmente justificada é, com toda a evidência, abster-se de praticá-lo.

À luz da razão, nenhum ser humano pode arrogar-se o direito de cometer livremente um ato que ele próprio não sabe dizer, com segurança, se é ou não um homicídio. Mais ainda: entre a prudência que evita correr o risco desse homicídio e a afoiteza que se apressa em cometê-lo em nome de tais ou quais benefícios sociais hipotéticos, o ônus da prova cabe, decerto, aos defensores da segunda alternativa. Jamais tendo havido um abortista capaz de provar com razões cabais a inumanidade dos fetos, seus adversários têm todo o direito, e até o dever indeclinável, de exigir que ele se abstenha de praticar uma ação cuja inocência é matéria de incerteza até para ele próprio.

Se esse argumento é evidente por si mesmo, é também manifesto que a quase totalidade dos abortistas opinantes hoje em dia não logra perceber o seu alcance, pela simples razão de que a opção pelo aborto supõe a incapacidade – ou, em certos casos, a má vontade criminosa – de apreender a noção de "espécie". Espécie é um conjunto de traços comuns, inatos e inseparáveis, cuja presença enquadra um indivíduo, de uma vez para sempre, numa natureza que ele compartilha com outros tantos indivíduos. Pertencem à mesma espécie, eternamente, até mesmo os seus membros ainda não nascidos, inclusive os não gerados, que quando gerados e nascidos vierem a portar os mesmos traços comuns. Não é difícil compreender que os gatos do século XXIII, quando nascerem, serão gatos e não tomates.

A opção pelo abortismo exige, como condição prévia, a incapacidade ou recusa de apreender essa noção. Para o abortista, a condição de "ser humano" não é uma qualidade inata definidora dos membros da espécie, mas uma convenção que os já nascidos podem, a seu talante, aplicar ou deixar de aplicar aos que ainda não nasceram. Quem decide se o feto em gestação pertence ou não à humanidade … Continue Reading ››

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