Arquivo da tag: Olavo de Carvalho

Ideias e consequências

a pedra da loucura

1. Olavo de Carvalho afirmou que o que eu escrevi no post anterior “não modifica em nada” o que ele disse sobre Peirce em seu artigo para Imbecil Coletivo. Uma vez que, segundo ele, “a filosofia de Peirce continua conhecida, em público, sobretudo pela tese que ele critica”.

Primeiro, quando você critica um filósofo por aquilo que o "público geral conhece" -- e não acompanhado cuidadosamente o próprio desenvolvimento da filosofia através dos textos e do debate em que ele está inserido e, de fato, se desenvolveu ao longo da história das ideias --, então você não está "criticando o filósofo", você está criticando a vulgarização daquela filosofia.

E, mais, o que é pior, torna-se, inclusive, um dos responsáveis por essa vulgarização diante do público geral. Portanto, bate num espantalho e "vende" aquela filosofia como se fosse coisa de gente “retardada”. As centenas dos leitores incautos replicam essa imagem distorcida aos quatro cantos e, ao invés de elevar o nível do debate filosófico – como presunçosamente pretendido –, a suposta crítica torna-se propagação de palpitaria e baixaria.

O próprio Olavo de Carvalho, numa entrevista recente, comentou a dinâmica desse processo acerca de sua própria obra:

“Tenho uns trinta e seis mil “seguidores” no Facebook (que só são seguidores num sentido ótico da palavra), uns cem mil leitores espalhados pelo Brasil e talvez uns duzentos mil ouvintes e espectadores no Youtube. Mas, de todos esses, só uns dois mil – menos de um por cento – são meus alunos no Seminário de Filosofia, e estes, a pedido meu, evitam participar de discussões na internet, só o fazendo quando é no quadro de alguma atividade profissional ou intelectual mais sistemática [...] Por isso, o que acaba aparecendo superficialmente como “discussão” das minhas ideias é justamente o que vem do público mais geral, que não tem comigo nenhuma relação de aprendizado e que me chama de “professor” apenas por gentileza. Não tem sentido esperar que esse público tenha uma compreensão das minhas ideias no nível que a têm os meus alunos. Deles vêm, com frequência, perguntas mal formuladas e opiniões toscas, que refletem um esforço de aprendizado sincero mas ainda muito incipiente. Alguns observadores maliciosos ou burros, no entanto, nada sabendo nem querendo saber dos meus cursos ou dos meus alunos, fazem questão de tomar justamente esse público geral como amostra típica dos resultados do meu ensinamento. É uma deformação caricatural monstruosa. Todo escritor ou filósofo tem um público geral que o aprecia sem compreendê-lo muito, mas tem também o direito de ser julgado pelos seus escritos e pelo seu ensinamento direto e não pela resposta incontrolável que obtém de um público difuso”  (destaques são meus).

Eu não estou defendendo Kant ou Peirce das críticas de Olavo; eu estou defendendo a interpretação cautelosa e o respeito à própria divulgação da filosofia, que é a mesma que Olavo exige em relação à sua obra. E não importa se a gente analisa um filósofo num periódico acadêmico ou divulga suas ideias na feira, a única coisa que importa é a responsabilidade de divulgar o que ele escreveu com precisão.

Afinal,  quando se trata da obra do próprio Olavo, então tem de ler todos os seus livros, frequentar as suas aulas etc. Mas quando se trata dos desafetos ou de um antípoda filosófico, então, beleza, está liberado!

2. Sobre a crítica de Olavo à tese de Peirce. Ele afirma: “Peirce diz que o único significado de uma idéia reside nas conseqüências práticas que dela se possa inferir”. Como vimos no post anterior, essa tese não é o miolo da sua filosofia.

Continua: “Ironicamente, a tese é inaplicável na prática”, ou seja, insinuando uma suposta contradição no “miolo da filosofia” de Peirce, o que, consequentemente, demoliria o todo de sua filosofia.

Sendo assim, vamos checar, de perto, as razões dessa denúncia feita por Olavo.

Segundo Olavo de Carvalho, o pragmatismo é inaplicável na prática, “porque existe uma diferença significativa e não raro uma separação abissal” entre duas concepções de “consequências práticas”.  Essa distinção é  uma interpretação de responsabilidade de Olavo que não se apoia nos textos do próprio Peirce. Se Olavo tivesse lido atentamente Peirce, saberia que a preocupação de toda sua filosofia consiste na relação entre “conceitos gerais” e a “determinação prática”. A relação entre “lógica” e “metafísica” é bem mais sutil no âmbito do “realismo objetivo” peirciano.

A crítica de Olavo ao “miolo da filosofia de Peirce” parte da distinção entre a) as “consequências práticas que se pode inferir mediante conjectura lógica” e b) as “as conseqüências práticas que ela de fato vem a desencadear no decorrer do tempo”. O problema é Olavo não conhecer a tese de Peirce da relação entre as ideias gerais e as determinações reais – expressão fundamental da sua leitura dos realistas escolásticos (sobretudo o princípio da individuação de Duns Scoto – e o conceito de haecceitas).

Segundo a interpretação de Olavo, Peirce “teria dito” que o significado está na “soma” das consequências! E, a partir disso, Olavo conclui que “a soma desses dois tipos de consequências dá ‘zero’”. Obrigação de perguntar: em que texto Peirce diz que o “significado está na soma desses dois tipos de consequências (a e b) distinguidas pelo próprio Olavo?  Olavo faz crer que em Peirce pensa segunda a sua própria interpretação sem dar uma prova textual disso.

O que Peirce diz exatamente no seu famoso texto de 1878 é isso aqui: “Para desenvolver o seu significado, temos, portanto, de simplesmente determinar quais os hábitos que produz, pois que o que uma coisa significa são simplesmente os hábitos que ela encerra” (podem conferir aqui).

Em outro texto, O que é pragmatismo,  Peirce escreve o seguinte: “Arquitetou a … Continue Reading ››

Use sua conta do facebook para fazer um comentário

Elementos DA MESMA DESCULPA

numeros-e-constelacoes-em-amor-com-uma-mulher-joan-miroEscrevi dois posts sobre uma parte da crítica do filósofo brasileiro Olavo de Carvalho acerca de outros dois grandes filósofos: Kant e Peirce. São relativamente famosas as observações críticas de Olavo a esses dois ícones da história da filosofia moderna e contemporânea.

1. Em Nota sobre Charles S. Peirce, publicado no livro Imbecil Coletivo, Olavo afirma: “E Charles Sanders Peirce gerou William James, que gerou John Dewey, que gerou Richard Rorty, que, desembarcando no Brasil, gerou entre os nativos o maior frisson e confusão mental. Remontemos às origens” (p. 68).

Todavia, sem prejuízos, essa sentença poderia ser escrita exatamente assim: “E Charles Sanders Peirce gerou William James, que, de um lado, ajudou a gerar Edmund Husserl e Ludwig Wittgenstein, e, do outro, gerou Henry Bergson e Eric Voegelin, que, quando publicado no Brasil, gerou entre os nativos da alta cultura o maior frisson e confusão mental.” Ou seja, eis o problema de remontar, por galhos tortos, às origens".

A primeira passagem da crítica já denuncia a falta de contato com a obra de Peirce e o descuido da análise crítica de Olavo. Afirma o filósofo brasileiro: “Peirce diz que o único significado de uma ideia reside nas consequências práticas que dela se possa inferir. Esta tese é o miolo da sua filosofia e o que origina sua denominação de pragmatismo: pragma, em grego, são os assuntos da vida prática” (p. 68).

Uma vez que basta comparar a sentença formulada por Olavo com a sentença original da “máxima pragmática” escrita por Peirce em seu famoso ensaio e 1878, How To Make Our Ideas Clear: “Considere quais efeitos, que possam concebivelmente ter consequências práticas, concebemos que o objeto de nossa concepção tenha. Então, nossa concepção desses efeitos é o todo de nossa concepção do objeto” (Consider what effects, that might conceivably have practical bearings, we conceive the object of our conception to have. Then, our conception of these effects is the whole of our conception of the object).

Notem bem o que o próprio Peirce tem a dizer acerca desse suposto “miolo de sua filosofia” numa carta enviada a William James (amigo e crítico de Peirce): “Desejo dizer que, apesar de tudo, o pragmatismo não resolve nenhum verdadeiro problema. Mostra apenas que pretensos problemas não são problemas reais. [...] não existe nada mais salutar do que deparar com problemas que ultrapassam nossa capacidade, o que proporciona, devo dizê-lo, a sensação deliciosa de ser embalados pelas águas sem fundo [...] parece-me que vocês todos têm uma sombra na retina mental que não deixa ver o que os outros veem e que tornaria o pragmatismo mais claro” (Collected Papers. 8.253).

Portanto, para quem já teve contato com a obra de Peirce, sabe que o “miolo da sua filosofia” não é a máxima pragmática, mas a formulação do “idealismo objetivo”, ou seja, de que as “ideias gerais” possuem estatuto metafísico, ou seja, o “realismo” (Peirce se dizia, nesse aspecto, "scotista" -- herdeiro do realismo medieval de Duns Scot) que se opõe diametralmente ao “nominalismo” e se expressa na sua “teoria do continuum” (mais informações: aqui).

Aliás, Peirce, num artigo para The Monist publicado em 1905, O que é pragmatismo, rejeita os “pragmatistas” William James, Ferdinand Schiller e Dewey por considerá-los “nominalistas” demais e popularizarem, de forma equivocada, o objetivo e a importância de sua “máxima”. Inclusiva, propõe mudar o nome de sua filosofia para “pragmaticismo” (Cf. Collected Papers 5. 414).

Numa carta a William James, diz Peirce: “Você [James] e Schiller levam o pragmatismo muito longe para o meu gosto [...]. A maior consequência do pragmatismo, de longe, e na qual tenho insistido sempre [...] é que nessa concepção da realidade temos de abandonar o nominalismo”.

A filosofia última de Peirce, seu núcleo duro e central, é o chamado “agapismo”: a retomada de um princípio cosmológico, isto é, uma “cosmogênese” do tipo neoplatônica via influência do panteísmo de Schelling (Peirce é confessadamente herdeiro do filósofo alemão). Recomendaria a leitura de Carl Hausman, um dos maiores estudiosos em Peirce, Charles S. Peirce's Evolutionary Philosophy (1993).

Eric Voegelin, em On the form of the American mind (p. 39-48), autor supostamente bem conhecido por Olavo de Carvalho, que até já deu cursos e escreveu textos sobre ele, no capítulo Time and Existence, traz uma exposição bem interessante a respeito do sistema filosófico de Peirce e William James. Assim, torna-se imperdoável para quem se diz conhecedor de Voegelin reduzir a filosofia de Peirce a frases aleatoriamente traduzidas e descontextualizadas do todo de sua obra monumental.

2. Numa entrevista em 2008, Olavo, de passagem, fala da paralaxe cognitiva e de Kant.  Vamos assumir a veracidade da chamada “paralaxe cognitiva”, que constitui “um capítulo adicional de crítica cultural” e se apresenta como um dos “elementos da filosofia de Olavo de Carvalho”.

Diz Olavo, denomina-se paralaxe cognitiva o “deslocamento, às vezes radical, entre o eixo da construção teórica de um pensador e o eixo da sua experiência humana real, tal como ele mesmo a relata ou tal como a conhecemos por outras fontes fidedignas”.

Segundo Olavo, esse “deslocamento começa a aparecer com frequência cada vez mais notável a partir do século XVI, dando a algumas das filosofias modernas a aparência cômica de gesticulações sonambúlicas totalmente alheias ao ambiente real em que se desenvolvem”. Seu exemplo de paralaxe cognitiva é a “teoria de Kant sobre a incognoscibilidade da ‘coisa em si’".

As críticas dirigidas ao problema da “coisa em si” (Ding an sich) de Kant remontam à primeira geração de idealistas alemães: Jacobi, Schulze e Reinhold. Chega na geração dos "clássicos" Fichte, Schelling e Hegel. Passa por Schopenhauer. E, na França, encontra as reações críticas do neo-kantiano Charles Renouvier, que … Continue Reading ››

Use sua conta do facebook para fazer um comentário

Religião, Ciência e mais algumas coisas sobre William James

Meus assíduos leitores já puderam perceber minhas novas aventuras na obra de William James. Pra quem freqüenta o site, ou me conhece, sabe que ando empolgado nos estudos desse pensador norte-americano.

Não abandonei os clássicos e já me perguntaram se eu teria abandonado Eric Voegelin. Não, não abandonei, suas obras, aos poucos, vão se hospedando nas melhores prateleiras da minha biblioteca.

Na verdade, preciso confessar uma coisa, estou estudando William James justamente por causa do Voegelin. Depois de ler e reler suas Reflexões Auto-biográficas, ter escalado a montanha Ordem e História, minha ficha caiu para um detalhe: não dá pra compreender Voegelin sem antes compreender sua trajetória intelectual. Os pragmatistas americanos, Peirce, James, Dewey e Santayana, foram decisivos.

Diferentemente do que julga Olavo de Carvalho, Peirce não só gerou James, gerou igualmente Voegelin. Julgar James, ou em geral os pragmatistas, por ter gerado Richard Rorty ou, sei lá, Cornel West, é cometer a maior das falácias genéticas. Mas deixemos esse assunto para outro post, prometo que comentarei esse deslize do Olavo.

O assunto desse post é outro. Gostaria de partilhar um pequeno texto do William James a respeito do lugar da Ciência no que diz respeito à experiência religiosa em geral. Não tenho dúvida, muitos perceberão que a afinidade com este filósofo vai além de um mero acidente biográfico.

Em certa altura do seu As Variedades da Experiência Religiosa - livro fundamental para compreender não só o método mas também como James coloca os pingos dos devidos "is" quando se trata da discussão entre Ciência e Religião - diz James:

“Acredito que as pretensões do cientista sectário são, para dizer o menos, prematuras. As experiências que temos estudado [as religiosas]... mostram francamente que o universo é mais multiforme do que qualquer seita admite, incluindo a científica. No fim de contas, que são todas as nossas confirmações senão experiências que concordam com sistemas mais ou menos isolados de idéias (sistemas conceituais), que nossas mentes construíram.

"Mas, porque, em nome do bom senso, precisamos presumir que apenas um desses sistemas de idéias há de ser verdadeiro? O resultado óbvio de nossa experiência total é que se pode tratar o mundo de acordo com muitos sistemas de idéias; e que ele é assim tratado por homens diferentes, e dará, cada vez, algum tipo de proveito característico, a quem o trata, ao mesmo tempo que outro tipo de proveito tem de ser omitido ou adiado.

"A ciência nos dá a todos a telegrafia, a iluminação elétrica e a diagnose, e consegue prevenir e curar algumas moléstias. Na forma da cura psíquica a religião nos dá a muitos de nós serenidade, equilíbrio moral e felicidade; e previne determinadas formas de doenças, como faz a ciência, ou até mais, com certa classe de pessoas. É evidente, portanto, que a ciência e a religião são ambas chaves genuínas destinadas a abrir a casa do tesouro do mundo àquele que for capaz de usar qualquer uma delas praticamente”.

Use sua conta do facebook para fazer um comentário

A Lógica do Abortismo

por Olavo de Carvalho

Fonte: Diário do Comércio

O aborto só é uma questão moral porque ninguém conseguiu jamais provar, com certeza absoluta, que um feto é mera extensão do corpo da mãe ou um ser humano de pleno direito. A existência mesma da discussão interminável mostra que os argumentos de parte a parte soam inconvincentes a quem os ouve, se não também a quem os emite. Existe aí portanto uma dúvida legítima, que nenhuma resposta tem podido aplacar. Transposta ao plano das decisões práticas, essa dúvida transforma-se na escolha entre proibir ou autorizar um ato que tem cinqüenta por cento de chances de ser uma inocente operação cirúrgica como qualquer outra, ou de ser, em vez disso, um homicídio premeditado. Nessas condições, a única opção moralmente justificada é, com toda a evidência, abster-se de praticá-lo.

À luz da razão, nenhum ser humano pode arrogar-se o direito de cometer livremente um ato que ele próprio não sabe dizer, com segurança, se é ou não um homicídio. Mais ainda: entre a prudência que evita correr o risco desse homicídio e a afoiteza que se apressa em cometê-lo em nome de tais ou quais benefícios sociais hipotéticos, o ônus da prova cabe, decerto, aos defensores da segunda alternativa. Jamais tendo havido um abortista capaz de provar com razões cabais a inumanidade dos fetos, seus adversários têm todo o direito, e até o dever indeclinável, de exigir que ele se abstenha de praticar uma ação cuja inocência é matéria de incerteza até para ele próprio.

Se esse argumento é evidente por si mesmo, é também manifesto que a quase totalidade dos abortistas opinantes hoje em dia não logra perceber o seu alcance, pela simples razão de que a opção pelo aborto supõe a incapacidade – ou, em certos casos, a má vontade criminosa – de apreender a noção de "espécie". Espécie é um conjunto de traços comuns, inatos e inseparáveis, cuja presença enquadra um indivíduo, de uma vez para sempre, numa natureza que ele compartilha com outros tantos indivíduos. Pertencem à mesma espécie, eternamente, até mesmo os seus membros ainda não nascidos, inclusive os não gerados, que quando gerados e nascidos vierem a portar os mesmos traços comuns. Não é difícil compreender que os gatos do século XXIII, quando nascerem, serão gatos e não tomates.

A opção pelo abortismo exige, como condição prévia, a incapacidade ou recusa de apreender essa noção. Para o abortista, a condição de "ser humano" não é uma qualidade inata definidora dos membros da espécie, mas uma convenção que os já nascidos podem, a seu talante, aplicar ou deixar de aplicar aos que ainda não nasceram. Quem decide se o feto em gestação pertence ou não à humanidade é um consenso social, não a natureza das coisas.

O grau de confusão mental necessário para acreditar nessa idéia não é pequeno. Tanto que raramente os abortistas alegam de maneira clara e explícita essa premissa fundante dos seus argumentos. Em geral mantêm-na oculta, entre névoas (até para si próprios), porque pressentem que enunciá-la em voz alta seria desmascará-la, no ato, como presunção antropológica sem qualquer fundamento possível e, aliás, de aplicação catastrófica: se a condição de ser humano é uma convenção social, nada impede que uma convenção posterior a revogue, negando a humanidade de retardados mentais, de aleijados, de homossexuais, de negros, de judeus, de ciganos ou de quem quer que, segundo os caprichos do momento, pareça inconveniente.

Com toda a clareza que se poderia exigir, a opção pelo abortismo repousa no apelo irracional à inexistente autoridade de conferir ou negar, a quem bem se entenda, o estatuto de ser humano, de bicho, de coisa ou de pedaço de coisa.

Não espanta que pessoas capazes de tamanho barbarismo mental sejam também imunes a outras imposições da consciência moral comum, como por exemplo o dever que um político tem de prestar contas dos compromissos assumidos por ele ou por seu partido. É com insensibilidade moral verdadeiramente sociopática que o sr. Lula da Silva e sua querida Dona Dilma, após terem subscrito o programa de um partido que ama e venera o aborto ao ponto de expulsar quem se oponha a essa idéia, saem ostentando inocência de qualquer cumplicidade com a proposta abortista. Seria tolice esperar coerência moral de indivíduos que não respeitam nem mesmo o compromisso de reconhecer que as demais pessoas humanas pertencem à mesma espécie deles por natureza e não por uma generosa – e altamente revogável – concessão da sua parte.

Também não é de espantar que, na ânsia de impor sua vontade de poder, mintam como demônios. Vejam os números de mulheres supostamente vítimas anuais do aborto ilegal, que eles alegam para enaltecer as virtudes sociais imaginárias do aborto legalizado. Eram milhões, baixaram para milhares, depois viraram algumas centenas. Agora parece que fecharam negócio em 180, quando o próprio SUS já admitiu que não passam de oito ou nove. É claro: se você não apreende ou não respeita nem mesmo a distinção entre espécies, como não seria também indiferente à exatidão das quantidades? Uma deformidade mental traz a outra embutida.

Aristóteles aconselhava evitar o debate com adversários incapazes de reconhecer ou de obedecer as regras elementares da busca da verdade. Se algum abortista desejasse a verdade, teria de reconhecer que é incapaz de provar a inumanidade dos fetos e admitir que, no fundo, eles serem humanos ou não é coisa que não interfere, no mais mínimo que seja, na sua decisão de matá-los. Mas … Continue Reading ››

Use sua conta do facebook para fazer um comentário

Deus e o dr. Hawking

Por Olavo de Carvalho

Fonte: Diário do Comércio, 13 de setembro de 2010

Recentemente, o físico Stephen Hawking, contrariando suas afirmações anteriores, disse que o universo bem poderia ter surgido do mero jogo espontâneo das leis físicas, sem nenhuma intervenção de um Deus criador.

Passou o tempo em que as declarações de físicos eram ouvidas como decretos divinos. Hoje elas se arrogam uma autoridade supradivina, julgando e suprimindo o próprio Deus. Mas nem mesmo se contentam em fazê-lo na esfera das puras considerações teóricas: estendem sua jurisdição a todo o campo da existência social, exigindo que a educação, a cultura e as leis se amoldem à sua cosmovisão científica, sob a pena de serem condenadas como atos de fanatismo e crimes contra o Estado democrático.

Ao mesmo tempo, no entanto, os signatários desses decretos pavoneiam-se de uma modéstia epistemológica exemplar, jurando praticar a constante revisão de suas próprias crenças e jamais impor a ninguém alguma verdade científica definitiva, a qual, admitem, nem mesmo existe.

A coexistência, num mesmo cérebro, de presunções tão avassaladoras, com um sentimento tão cândido de abstencionismo crítico, já deveria bastar para mostrar que algo, nesse cérebro, não funciona bem.

Desde logo, raramente vemos um desses pontífices do conhecimento mostrar alguma consciência da distinção entre o mundo real e o objeto de estudos da sua ciência especializada. O "universo" a que se refere o prof. Hawking não é o da experiência humana geral, mas o universo abstrato tal como conhecido pela ciência física. Nem o prof. Hawking, nem qualquer outro cientista da sua área, pode nos oferecer a mais mínima prova de que o universo da física seja "real".

Ao contrário, não há problema mais espinhoso, para todos eles, que o do estatuto ontológico das partículas estudadas pelo ramo mais desenvolvido e mais exato da ciência, … Continue Reading ››

Use sua conta do facebook para fazer um comentário