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Progresso e Religião de Christopher Dawson – Resenha

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[É com grande honra que inauguro o espaço de resenhas do site Fides et Ratio com a resenha, escrita pelo querido amigo David Dias,  do já clássico livro Progresso e Religião do Christopher Dawson recentemente traduzido e publicado pela editora É-Realizações.]

“A religião é como o seio no qual tem origem os germes da civilização humana.” Durkheim

Em “Progresso e Religião”, obra das mais importantes do filósofo Christopher Dawson, encontramos uma análise sobre qual o verdadeiro substrato da cultura e o que a faz progredir. Sua tese é a de que uma cultura somente pode prosperar quando retira seu dinamismo da religião, pois ela fornece direta ou indiretamente o arcabouço intelectual da sociedade, indo desta forma contra o determinismo histórico vigente no século XIX e propondo uma visão espiritual da história.

Primeiro, o autor usa elementos de sociologia, história e antropologia em seu argumento contra a ideia do progresso pautada por fórmulas idealistas ou somente por transformações materiais. Sua crítica à teoria do progresso de Spengler ou da visão histórica de Hegel, bem como de interpretações históricas baseadas no racionalismo científico tais como a de Auguste Comte e do darwinismo social são exemplos disso. As visões determinísticas propostas por estas correntes do pensamento não dão espaço para o maior agente do progresso cultural: o espírito humano.

A partir do momento em que se questiona sobre as forças da natureza e suas transformações buscando causas para explicar o mundo, o homem torna a ciência e a filosofia possíveis. Mas é da religião, que existe como explicação de toda realidade, do mundo físico à moral, além dos movimentos do espírito, que o homem retira suas principais categorias cognitivas e, portanto, é a partir da visão religiosa que ele busca compreender o mundo que o cerca.

Partindo disso, o autor demonstra historicamente que os momentos de progresso cultural coincidem com o florescimento ou a reaproximação das grandes religiões. Também demonstra como as épocas em que houve afastamento ou declínio da religião dominante foram épocas decadentes.

Essa tese é posta à prova na história do ocidente. Dawson analisa o surgimento do cristianismo e seu efeito como único elemento capaz de conferir unidade cultural a uma Europa medieval fragmentada politicamente; bem como seus próprios renascimentos culturais como o carolíngio e o franciscano a partir de reaproximações com a mensagem original, ou as formas do renascimento fora da Itália a partir da reinterpretação do cristianismo pelos povos nórdicos e germanos. Também mostra como certas doutrinas que serviram de substrato cultural em momentos mais recentes na história européia, tal como a crença no progresso, retiraram sua base do pensamento religioso.

Por fim, o que gerou a atual decadência pela qual passa a cultura ocidental desde a segunda parte do século XIX foi a tomada de algo secundário à nossa cultura como fator principal. A tradição científica herdada dos gregos antigos teve papel preponderante na história européia por servir de impulso interno na cultura impossibilitando que ela se tornasse imóvel como as civilizações orientais em geral. Todavia, esta “religião da ciência” é incapaz de fornecer a base espiritual que o cristianismo forneceu à Europa e evitar a fragmentação e o enfraquecimento cultural sofrido pelo continente europeu desde que este retirou o elemento espiritual expresso na religião cristã como centro de sua cultura, trocando-a por uma fé no futuro.

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Mulheres na Idade Média

Quando o assunto é Idade Média algumas pessoas até levantam da cadeira para esbravejar, agora quando o assunto é Idade Média e Mulher, bom, aí é bem provável que você arrume um inimigo. Infelizmente o cenário intelectual tem muito a ser mudado. Poucas pessoas estão realmente empenhadas em deixar os livros do parquinho de lado e buscar um conhecimento mais sólido sobre um assunto tão interessante.

Nem Trevas nem Luz, apenas história de verdade! Aqui no site mesmo, dentro das minhas forças, faço de tudo pra derrubar os mitos criados em torno desse "período fantasma" da História. Encontrei este excelente texto de Régine Pernoud. A Idade Média: O que não nos ensinaram.  Disponível no site Idade Média*Glória da Idade Média. Vale uma reflexão!

"Precisamente por causa da valorização prestada pela Igreja à mulher, várias figuras femininas desempenharam notável papel na Igreja medieval. Certas abadessas, por exemplo, eram autênticos senhores feudais, cujas funções eram respeitadas como as dos outros senhores; administravam vastos territórios como aldeias, paróquias; algumas usavam báculo, como o bispo...

Seja mencionada, entre outras, a abadessa Heloisa, do mosteiro do Paráclito, em meados do século XII: recebia o dízimo de uma vinha, tinha direito a foros sobre feno ou trigo, explorava uma granja... Ela mesma ensinava grego e hebraico às monjas, o que vem mostrar o nível de instrução das religiosas deste tempo, que às vezes rivalizavam com os monges mais letrados.

Pena faltar estudos mais sérios sobre o tema...É surpreendente ainda notar que a enciclopédia mais conhecida no século XII se deve a uma mulher, ou seja, à abadessa Herrade de Landsberg. Tem o título "Hortus Deliciarum" (Jardim das Delícias) e fornece as informações mais seguras sobre as técnicas do seu tempo. Algo de semelhante se encontra nas obras de Santa Hildegarda de Bingen.

Gertrude de Helfta, no século XIII conta-nos como se sentiu feliz ao passar do estado de "romancista" ao de "teóloga". Conforme Pedro, o Venerável, ela, em sua juventude, não sendo freira e não querendo entrar num convento, procurava, todavia, estudos muito áridos, ao invés de se contentar com a vida mais frívola de uma jovem.

Ao percorrer o ciclo de estudos preparatórios ela galgara o ciclo superior, como se fazia na Universidade. Veio da abadia feminina de Gandersheim um manuscrito do século X contendo seis comédias, em prosa rimada, imitação de Terêncio, e que são atribuídas à famosa abadessa Hrotsvitha, da qual, há muito tempo, conhecemos a influência sobre o desenvolvimento literário nos países germânicos.

Estas comédias, provavelmente representadas pelas religiosas, são, do ponto de vista da história dramática, consideradas como prova de uma tradição escolar que terá contribuído para o teatro da Idade Média."

(Autor: Régine Pernoud, “Idade Média ? o que não nos ensinaram”)

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A Filosofia-Mística de Eric Voegelin

[Caríssimos leitores, encontrei este interessante artigo sobre Eric Voegelin, não conhecia o autor, espero tentar contato com ele em breve, pra mim é uma satisfação enorme encotrar bons estudiosos de Voegelin - Fonte: A Vida Intelectual - Autor: Edward Wolff] Das várias introduções ao pensamento de Eric Voegelin, a de Michael P. Federici é uma das mais interessantes e concisas, além de amplamente reconhecida por seu mais famoso discípulo, Ellis Sandoz. O objetivo deste artigo é delinear, em linhas bem gerais, as doutrinas de Voegelin sobre o papel civilizacional da filosofia e do filósofo, bem como alguns aspectos de sua filosofia da consciência. Em termos simples, Voegelin entende que o colapso em que se encontra o mundo, sobretudo o Ocidente, é fruto da perda da consciência de experiências históricas vitais para a ordem política, social e existencial. São essas experiências históricas, juntamente com seus símbolos linguísticos correspondentes, que iluminam a verdade da realidade. Neste quadro desolador, as ideologias lograram êxito mediante a deturpação desses símbolos, usurpando-os e desconectando-os de suas experiências originais. A tarefa do filósofo é, portanto, reconquistar em sua própria consciência as "experiências desencadeantes" (engendering experiences), recapturando a verdade da realidade (o ground of being) que vive concentrada em símbolos. Isso significa que os símbolos linguísticos do mito, da revelação, da história e, acima de tudo, da filosofia, devem ser reativados antes de quaisquer debates políticos mais profundos. Em outras palavras, a tarefa do filósofo é reproduzir imaginativamente o significado dos símbolos mediante atos meditativos, criando, assim, "símbolos reflexos" que articulem a verdade contida nos "símbolos originais". Há dois aspectos importantes no que acabo de dizer: (1) o objetivo da filosofia é muito mais ousado do que o mero estudo da realidade e das principais idéias que a descreveram ao longo da história, e (2) o filósofo voegeliniano não é um simples intelectual, mas um místico. Mas como é isso? Como opera exatamente esse filósofo? A restauração da consciência às experiências da ordem exige por parte do filósofo uma abertura total para a busca existencial (zetema) da fonte divina dessa ordem. Trata-se de um processo de recordação (anamnesis) daquilo que permanece dormente na mente ocidental e que aguarda ser imaginativamente despertado pela alma espiritualmente sensível do filósofo. A exemplo de Platão, Voegelin acredita que somente "almas ordenadas" seriam capazes de restaurar a ordem política e social. Não se trata de mera recuperação dos símbolos e das experiências históricas da transcendência, mas uma reatuação meditativa, uma imitação mesmo, das experiências espiritualmente substanciosas que motivaram as evocações simbólicas do passado. Assim, aanmnesis não é uma restauração literária, ou seja, não se trata de estudar os Great Books, que é algo que pode ou não ser relevante. Portanto, a filosofia política não é o estudo da história das idéias políticas, pois isso seria uma deformação ideológica da realidade: a filosofia é a verdadeira "luz da sabedoria" que recompensa o esforço do filósofo em localizar as forças do mal e identificar sua natureza. O filósofo é um grande herói, um homem de extrema coragem, que luta em meio à sociedade desordenada a fim de restaurar a ordem. O estudo da história é relevante apenas enquanto alimento para estimular o filósofo na busca pela ordem. A educação, acredita Voegelin, é a arte platônica da periagoge, ou seja, é o giro da alma em direção ao fundamento divino ao mesmo tempo que a afasta da indolência espiritual e da desolação do mundo. Voegelin segue o método aristotélico de ciência política. Tudo começa com o filósofo analisando os símbolos auto-interpretativos de sua sociedade em particular -- "justiça", "felicidade" e "cidadão", por exemplo. Uma vez que estes símbolos tenham sido compreendidos, o próximo passo é medi-los contra os símbolos linguísticos do próprio filósofo. Não raro, o filósofo perceberá que vive fora de sintonia, como que em tensão, com essa sociedade. Platão, por exemplo, seria um filósofo voegeliniano. Ele percebeu com clareza as fraquezas da sociedade ateniense, procurando retificá-las em sua própria alma. Cícero, por outro lado, é um contra-exemplo de filósofo voegeliniano. Ele não identificou as fraquezas de Roma porque a considerava o estado ideal. Assim, a tarefa precípua do filósofo é criar uma tensão entre a ordem da sociedade e a ordem de sua própria alma, sendo que a restauração da ordem depende da capacidade do filósofo em tocar as consciências das outras pessoas ao nível do pathos (apelo mediante a "ternura" ou "compaixão"). É por isso que Voegelin prescreve que recuperemos as experiências de ordem e transcendência. No nível da experiência, reside uma percepção da realidade que é muito mais difícil de ignorar do que a verdade contida em proposições e dogmas. Para que as almas movam-se em direção ao Agathon (ou summum bonum escolástico), o spoudaios (filósofo, o "homem maduro" aristotélico) tem de confrontar as almas desordenadas de forma a vencer sua resistência à busca pela realidade transcendente, ou seja, sua logophobia, e passem a cultivar o desejo de buscar a ordem e a verdade mediante sua participação nonous divino. Além da filosofia, um dos instrumentos mais importantes para a restauração das experiências desencadeantes na consciência são os mitos. Os mitos ajudam a manter vivas e vibrantes as experiências com a realidade transcendente. É o caso dos mitos da Criação, de Noé e o Dilúvio e da Torre de Babel, nas quais o conteúdo das histórias não é o importante, mas as experiências ali simbolizadas. Os mitos são frequentemente resultado de experiências de revelação divina, como foi o caso com Moisés ou Isaás. Esta observação nos leva a uma questão importante. Voegelin considera que a diferenciação que ocorre após a experiência desencadeadora, ou seja, os novos insights que se acumulam com o processo histórico, é um fenômeno que ocorre tanto com as revelações quanto com a filosofia. Isso significa, embora não o diga explicitamente, que os simbolismos da revelação e da filosofia são, de certa forma, equivalentes. A filosofia da consciência é um importante elemento na compreensão do pensamento de Voegelin. A consciência é a área da realidade onde o intelecto divino (nous) move … Continue Reading ››

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História da Filosofia e História das Ideias

A natureza da filosofia pode ser apreendida mediante dois contrastes : com a ciência, por um lado, e com a teologia, por outro. Comumente, a ciência constitui o domínio da investigação empírica; ela origina-se da tentativa de compreender o mundo como o percebemos, predizer e explicar eventos observáveis e formular as “leis da natureza” (caso existam), consoante as quais o curso da experiência humana deve ser explicado.

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Meu Presente de Natal

Por Martim Vasques da Cunha

Fonte: Dicta&Contradicta

Em uma época em que se discute se o livro como objeto físico irá permanecer ou não, eis que a Cosac Naify resolve provar que “yes, we can!”, com nada mais nada menos O outono da idade média, a obra-prima de Johan Huizinga.

Huizinga não brincava em serviço. Era um historiador que sabia pesquisar os documentos, sabia escrever e, sobretudo, sabia pensar. Não se intimidava por moldes ideológicos que deformavam a visão real do que foi um determinado período na História. Podia ser acusado de esteticismo em alguns momentos, mas era um esteta de excelente gosto – e, de certa forma, isso é um pecado menor.

A edição da Cosac Naify vem com imagens fabulosas de quadros e desenhos da época retratada, além de uma entrevista com o historiador Jacques Le Goff, um ensaio correto de Peter Burke e uma qualidade gráfica que faz qualquer editor brasileiro pensar duas vezes antes de lançar o seu próximo livro.

Como se não bastasse, o livro em si é uma delícia de leitura. Talvez os únicos que podem ser comparados a Huizinga na escrita da história sejam Jacob Burckhardt, Edward Gibbon e, mais recentemente, Jacques Barzun. O leitor não lê apenas sobre a Idade Média; ele vive a Idade Média. Os capítulos sobre a importância da morte e da vida religiosa no período calam a boca de qualquer idéologo que acusa os medievais de viverem em uma Idade das Trevas. De fato, não era uma época bonita de se viver – era extremamente violenta sob certos aspectos e tinha uma certa morbidez rondando o ar que perturba os mais incautos -, mas havia um espaço para a liberdade interior do indivíduo que, atualmente, foi relegada ao esquecimento.

Além disso tudo, ter um Huizinga na estante, no começo deste século XXI, é um privilégio para poucos. O historiador holandês quase nunca aparecia nas prateleiras de língua portuguesa – havia uma tradução do livro com o título O declínio da Idade Média, que era para fazer-me rir. Quais os motivos desta lacuna? Não se sabe: talvez Huizinga seja um autor muito sofisticado para a patuléia de intelectuais que aplaudem o poder estatal como se estivessem na Idade Média imaginada por eles próprios. O que importa é que a Cosac Naify rompeu esta barreira e esperamos que não tenha sido um lapso e sim o início de um bom e constante caminho editorial.

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