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O Deus dos fracos

Por Francisco Razzo

Gosto muito de conversar com ateus, mesmo os estrategicamente mais sujos, mesmo os intelectualmente mais ingênuos. Minha vida toda foi vivida nessa tensão entre a existência ou não de Deus. Desde garoto sou perturbado por “Deus”. É uma estupidez descabida essa ideia de que os religiosos não duvidam de Deus. Quem fala isso é porque nunca sequer leu uma única linha das confissões de um religioso.

Na verdade, os que mais me ensinaram a duvidar de Deus foram os religiosos. Um homem verdadeiramente religioso não vive sua religiosidade como alguém que acaba de aprender o alfabeto no parquinho; um homem religioso é aquele que experimenta radicalmente todos dos dias que a sua existência não tem realmente sentido quando não é vivida em cima do desesperador fio da navalha entre Salvação ou Desgraça, Glória ou Absurdo.

O homem honesto é o homem que chora ao pé da cama. Não existe esse papo besta de que morreu acabou e é preciso ser forte e compreender isso. Homem forte não é o que superou o medo da morte, na verdade esse é o mentiroso. O ateu, muitas vezes, diz que o religioso é um fraco que cria uma zona de conforto uma vez que não teve ainda a coragem de enfrentar o medo da morte. Nada mais estúpido!

Meu fantasma interior, esse que nós apelidamos de alter ego, é ateu. Todos os dias ele diz baixinho ao pé do meu tormento e no silêncio íntimo da minha interioridade que eu preciso ser forte, superar os meus medos de abismos e encarar como homem o olhar sedutor da Vida!

Sempre pensei na vida como uma puta entediada sentada ao pé da cama me esperando, todo constrangido, abrir a carteira e pagar o programa. Um homem honesto sabe que nunca será bom o bastante pra ela. Não existe essa coisa de que você é homem e por isso é bom o suficiente. Olhar a vida de frente não tem nada a ver com superação, virilidade, prazeres e conquistas, muito pelo contrário, só tem a ver com silêncio, miséria e abandono. Sabemos que ela sempre vai embora insatisfeita enquanto fingimos pra nós mesmos que fomos bons o bastante.

Só quem já chorou de joelhos ao pé cama começa a compreender, muito ligeiramente, o que se passa no interior da alma de um santo em oração.

Todo vez que converso com um ateu e o vejo tentando conter o sorriso de satisfação ao afirmar que “para a Ciência, Deus é uma hipótese desnecessária para explicar o mundo!”, entro no comovente dilema se eu devo dar-lhe um soco ou um abraço.

Nem sempre em minha vida desconfiei do efeito psicológico que Ciência causa. Já estive iludido pelas suas supostas promessas de Autossalvação, Futuro e, essa palavra já em desuso, Progresso. No entanto, logo que comecei a perceber que estava me tornando confiante demais na Ciência, larguei a Química. Nada contra a Ciência e muito menos contra a Química. Isso eu deixo para os pós-modernos que dizem que a Ciência é expressão do discurso e da racionalidade de dominação do macho sobre o mundo.

Não acredito nesses pós-modernos, são uma gente frustrada, também não entenderam que “Ciência” é apenas uma abstração chique onde expressamos nossas fraquezas, ou seja, “Ciência” é apenas o nome pomposo de um brinquedo para uma diversão sofisticada. Não tem nada de macho sobre fêmea, dominação e Ocidente malvado.

O erro do meu fantasma interior é achar que “Deus um dia serviu como hipótese de explicação para o mundo”. Não conheço um religioso que ao chorar ao pé da cama um dia tenha rezado pra esse Deus aí. Esse Deus aí é imagem e semelhança dos fracos, isto é, dos homens que batem com o punho cerrado no peito e acreditam realmente satisfazer a Vida. Não há fraqueza maior do que essa de acreditar nas promessas de felicidade do olhar penetrante da Vida e achar que um dia vamos compreendê-la e, orgulhosamente, satisfazê-la. Meu alter ego se borra todo diante desse abismo.

Tente encontrar um único santo que um dia acreditou e, ao pé da cruz, rezou a esse “Deus hipótese”. O Deus de um homem religioso é o Deus que Salva, Redime e Ama, pois é um Deus que chora com você na tua escuridão.

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