Arquivo da tag: Cristo

Mensagem de Natal

 

« Não tem aparência bela nem decorosa para atrair os nossos olhares… Foi desprezado e evitado pelos homens, homem das dores, familiarizado com o sofrimento; como pessoa da qual se desvia o rosto, desprezível e sem valor para nós. No entanto, ele tomou sobre si as nossas enfermidades carregou-se com as nossas dores, e nós o julgávamos açoitado e homem ferido por Deus e humilhado. Mas foi transpassado por causa dos nossos delitos, e espezinhado por causa das nossas culpas. A punição salutar para nós foi-lhe infligida a ele, e as suas chagas nos curaram. Todos nós, como ovelhas, nos desgarrámos, cada um seguia o seu caminho; o Senhor fez cair sobre ele as culpas de todos nós ». (Is. 53, 7-9.)

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Christos Anesti!!!

 

« Aprouve ao Senhor que... oferecendo a sua vida em expiação, gozasse de uma descendência longeva e por seu meio tivesse efeito o intento do Senhor. Das aflições do seu coração sairá para ver a luz e desta visão se há-de saciar. O Justo, meu servo, justificará a muitos e tomará sobre si as nossas culpas. Por isso, dar-lhe-ei-em prémio as multidões e fará dos poderosos os seus despojos, em recompensa de se ter prodigalizado, mesmo até à morte, e se ter deixado contar entre os malfeitores, quando, ao invés, ele tomou sobre si a culpa de muitos e intercede pelos malfeitores »

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As tentações de Jesus

por Bento XVI*

A descida do Espírito Santo sobre Jesus, que encerra a cena do batismo, institui formalmente o seu ministério. Por isso os Padres viram neste processo, com razão, uma analogia com a unção, com a qual os reis e os sacerdotes eram instituídos no seu ministério cm Israel. A palavra Messias-Cristo significa "o ungido": a unção era considerada, na Antiga Aliança, o sinal visível da dotação com os talentos do ministério, com o Espírito de Deus para o ministério.

Em Is 11,2 desenvolve-se conseqüentemente a esperança a respeito de um verdadeiro "Ungido", cuja "Unção" consiste precisamente em sobre ele descer o Espírito do Senhor, "o Espírito da sabedoria e da inteligência, o Espírito do conselho e da força, o Espírito do conhecimento e do temor de Deus". Segundo o relato de S. Lucas, Jesus apresentou-se a si mesmo e à sua missão na Sinagoga de Nazaré com uma citação análoga de Isaías: "O Espírito do Senhor repousa sobre mim, porque o Senhor me ungiu" (Lc 4,18; Is 61,1). A conclusão da cena do batismo nos diz que Jesus recebeu esta verdadeira "Unção" que Ele é o Ungido esperado — que a Ele naquela hora foi conferida formalmente, para a história e perante Israel, a dignidade real e a dignidade sacerdotal.

A partir de então, Ele está subordinado a esta missão. Os três Evangelhos sinópticos contam-nos, para nossa surpresa, que a primeira ordem do Espírito é levá-lo para o deserto "para aí ser tentado pelo demônio" (Mt 4,1). O recolhimento interior precede à ação, e este recolhimento também é necessariamente uma luta pela sua missão, uma luta contra as deturpações da missão que se oferecem como suas reais realizações. A missão consiste em descer aos perigos do homem, porque só assim pode o homem caído ser levantado: Jesus deve (isso pertence ao cerne da sua missão) penetrar no drama da existência humana, atravessá-lo até seu último fundo, para encontrar a "ovelha perdida", colocá-la nos seus ombros e levá-la para casa.

A descida de Jesus "ao inferno", de que fala a profissão de fé, não se realizou apenas na sua morte e depois da sua morte, mas pertence ininterruptamente ao seu caminho: Ele deve agarrar toda a história desde o seu início (desde "Adão") atravessá-la e sofrê-la completamente para que assim a possa transformar. Especialmente a Epístola aos Hebreus enfatizou que pertence à missão de Jesus, à sua solidariedade conosco antecipadamente representada no batismo, não se negar às ameaças e aos riscos da condição humana: "Por isso teve de assemelhar-se em tudo aos seus irmãos, a fim de ser um Sumo Sacerdote misericordioso e fiel no serviço de Deus para expiar os pecados do povo. E porque Ele mesmo sofreu e foi tentado é que pode socorrer os que são tentados" (Hb 2, 17s). "Porque não temos um Sumo Sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas. Pelo contrário, Ele mesmo foi provado em tudo, à nossa semelhança, exceto no pecado." (Hb 4, 15) A história das tentações mantém assim uma estreita relação com a história do batismo, na qual Jesus se solidariza com os pecadores. Próximo dela está a agonia no jardim das Oliveiras como a outra grande luta de Jesus motivada pela sua missão. Mas as "tentações" acompanham todo o caminho de Jesus, e assim a história das tentações aparece — de um modo semelhante ao batismo — como uma antecipação na qual se condensa a luta de todo o caminho. No seu curto relato da tentação (cf. 1,13), S. Marcos pôs em evidência os paralelos com Adão, o intenso sofrimento do drama humano enquanto tal: Jesus "vivia entre as feras e os anjos o serviam". O deserto — o oposto do Jardim — torna-se o lugar da reconciliação e da salvação; os animais selvagens, que representam a forma concreta da ameaça do homem através da rebelião da criação e do poder da morte, tornam-se amigos como no paraíso. É assim restaurada aquela paz que Isaías anuncia para os tempos do Messias: "Então o lobo habita com o cordeiro, a pantera com o cabrito..." (Is 1 1 , 6 ) . Onde o pecado é vencido, onde a harmonia do homem com Deus é restaurada, segue-se a reconciliação da natureza, a criação dilacerada transforma-se em lugar de paz, como S. Paulo diz, quando fala do suspiro da criação, que "espera ansiosamente pela manifestação dos filhos de Deus" (Rm 8 , 1 9 ) .

Não são os oásis da criação, que surgiram por exemplo em torno das abadias beneditinas do Ocidente, antecipações desta reconciliação da criação, que vem dos filhos de Deus, assim como inversamente casos como Chernobyl são a perturbadora expressão da criação escravizada na ausência de Deus? S. Marcos encerra a sua breve história da tentação com uma palavra, que é possível conceber como alusão ao salmo 91,11ss:"... E os anjos serviam-no". A palavra encontra-se também como conclusão da história pormenorizada da tentação em S. Mateus e só a partir deste contexto mais vasto é que se torna inteiramente compreensível.

S. Mateus e S. Lucas narram três tentações de Jesus, nas quais se espelha a luta por causa da sua missão, bem como se introduz, ao mesmo tempo, a questão sobre o sentido da vida humana enquanto tal. O núcleo de toda a tentação — isso se torna visível aqui — é colocar Deus de lado, o qual, junto às questões urgentes da nossa vida, aparece como algo secundário, se não mesmo de supérfluo e incômodo. Ordenar; construir o mundo de um modo autônomo, sem Deus; reconhecer como realidade apenas as realidades políticas e materiais e deixar de lado Deus, tendo-o como uma ilusão: aqui está a tentação que de muitas formas hoje nos ameaça.

Pertence à essência da tentação o seu aspecto moral: ela não nos convida diretamente para o … Continue Reading ››

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EVANGELHO E CULTURA – I

por Eric Voegelin

GiottoA Comissão Directiva honrou-me com o convite de proferir uma conferência acerca de "Evangelho e Cultura".[1][1] Se bem compreendi a intenção dos membros da comissão queriam escutar o que um filósofo tem para dizer acerca da dificuldade do Verbo em se fazer ouvir no nosso tempo e, se ouvido, tornar-se inteligível para aqueles que o querem escutar.

Porque seria o evangelho vitorioso nas circunstâncias helenistico-romanas da sua origem?  Porque atraiu uma élite intelectual que elaborou o significado do Evangelho em termos de filosofia e, deste modo, criou uma doutrina Cristã?  Porque pôde esta tornar-se religião do Império Romano?  Como pôde a Igreja, atravessado este processo de aculturação, sobreviver ao Império Romano e tornar-se a crisálida, da civilização Ocidental, como lhe chamou Toynbee? E o que ofuscou esta força cultural triunfante, de modo a que, hoje, as igrejas estão na defensiva contra os movimentos intelectuais dominantes do nosso tempo e abaladas por uma crescente inquietação no seu interior?

Uma ordem de trabalhos impressionante, devo dizer.  E, contudo, aceitei-a porque de que serviria a filosofia se nada tivesse para dizer acerca das grandes questões que os homens do nosso tempo lhe podem, justificadamente, colocar?  Mas se considerarmos a amplidão do desafio, compreendereis que não posso prometer mais do que uma tentativa humilde para justificar a confiança da Comissão e para salvar a honra da filosofia.

I

Orientei as questões iniciais para o tema do evangelho e da filosofia e, começarei por apresentar uma instância antiga e outra recente em que o tema se tornou tópico.

Ao absorver a razão na forma da filosofia helenística o evangelho da ekklesia tou theou primitiva tornou-se a Cristandade da Igreja.  Se a comunidade do evangelho não tivesse penetrado na cultura do tempo ao entrar na sua vida da razão, teria permanecido uma seita obscura e provavelmente desapareceria da história; conhecemos o destino do Judeo-Cristianismo.  A cultura da razão, por sua vez, atingira uma fase em que era sentida como um impasse por jovens sedentos para os quais o evangelho parecia oferecer a resposta à busca filosófica da verdade.  A introdução ao Diálogo de Justino documenta esta situação.  Na concepção de Justino, o mártir, (morto cerca de 165 d. C.), o evangelho e a filosofia não se apresentam ao pensador em alternativa, nem são aspectos complementares da verdade que o pensador tem de soldar numa verdade completa- na sua concepção, o Logos do evangelho é o mesmo Deus que o fogos spermatíkos da filosofia, embora numa fase posterior da sua manifestação na história.  O Logos opera no mundo desde a criação; todos os homens que viveram segundo a razão, quer gregos (Heráclito, Sócrates, Platão), ou bárbaros (Abraão, Elias), foram num certo sentido Cristãos (Apologia 1, 46).  Donde, que a Cristandade não seja uma alternativa à filosofia, mas a própria filosofia no seu estado de perfeição; a história do Logos cumpre-se através da incarnação do Verbo em Cristo.  Para Justino a diferença entre evangelho e filosofia é uma questão de fases sucessivas na história da razão.[2][2]

Tendo presente esta apresentação muito antiga do tema, iremos agora examinar um pronunciamento recente.  Extraí-o do Novo Catecísmo de 1966, encomendado pela hierarquia dos Países-Baixos e convencionalmente chamado o Catècísmo Holandês.  O seu capítulo de abertura tem o título "O Homem Questionador"; e na primeira página encontramos a seguinte passagem:

"Este livro ... começa por nos interrogar sobre qual é o significado do facto de que nós existimos.  Isto não significa que nós começamos por tomar uma atitude não-Cristã.  Significa simplesmente que nós, também, como Cristãos somos homens com mentes questionantes.  Devemos estar sempre prontos e capazes de explicar como a nossa fé dá uma resposta à questão da nossa existência."[3][3]

A passagem, embora pouco polida, é filosoficamente muito relevante.  A sua rudeza bem-intencionada esclarece bastante as dificuldades em que as igrejas se encontram hoje.  Note-se acima de tudo a dificuldade que a Igreja tem face aos seus próprios crentes que querem ser Cristãos à custa da própria humanidade.  Justino começou como uma mente questionante e, depois de ter experimentado as escolas filosóficas da época, deixou que a sua busca se apaziguasse na verdade do evangelho.  Hoje, a situação está invertida.  Se os crentes estão em descanso num estado de fé que não põe perguntas, o seu metabolismo intelectual tem de ser estimulado pela lembrança que o homem é suposto questionar-se e, que um crente incapaz de explicar como a sua fé é uma resposta ao enigma da existência, pode ser um "bom-Cristão", mas é um homem questionável.  E podemos fortalecer a lembrança recordando, delicadamente, que nem Jesus nem os companheiros a quem Ele transmitiu a palavra sabiam ainda que eram Cristãos; o evangelho oferecia a sua promessa, não a Cristãos, mas aos pobres em espírito, ou seja, a mentes questionantes, embora situados num nível culturalmente menos sofisticado que o de Justino.  Por trás da passagem emerge o conflito, não entre o evangelho e a filosofia, mas antes entre o evangelho e a sua posse inquestionável como doutrina.  Os autores do catecismo não encaram este conflito com ligeireza; antecipam, mesmo, resistência à sua tentativa de encontrar a humanidade comum dos homens no facto de questionar o significado da existência; e protegem-se contra uma incompreensão precipitada assegurando o leitor que não pretendem "tomar uma atitude não-Cristã".  Assumindo que ponderaram rigorosamente cada afirmação que escreveram, esta cláusula defensiva revela um ambiente onde não é habitual pôr questões, onde o carácter do evangelho como resposta foi tão nocivamente obscurecido pelo seu endurecimento em doutrina estanque que o levantamento da questão, a que o evangelho responde, pode ser suspeito como "atitude não-Cristã".  Se é esta a situação, contudo, os autores têm boas razões para estarem inquietos.  Porque o evangelho como doutrina que se pode pegar e ser salvo, ou largar e ser condenado, é letra morta; encontrará indiferença, se não mesmo desprezo, entre mentes questionantes fora da Igreja, bem … Continue Reading ››

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