Os bárbaros e os riscos da democracia
originalmente publicado em Ad Hominem – Humanidades e outras falácias
Há uma peculiaridade no idioma grego clássico que pode nos ajudar a refletir a respeito não apenas do surgimento da democracia, mas do seu próprio modus operandi: é impossível compreender o que alguém pretende dizer sem ouvir até o final o que será dito. A sintaxe grega – tão orgânica e lógica – não permite induções apressadas do tipo “Ah, já entendi aonde você quer chegar!”, típicas do nosso idioma e tão expressivas em nossas disputas intelectuais e políticas. Em grego, ou você escuta até o final ou vira as costas e deixa seu interlocutor falando sozinho sem saber o que ele realmente queria te comunicar. Segundo o filólogo Henrique Murachco, em grego “todas as relações dentro do enunciado estão encadeadas organicamente, logicamente, como os elos de uma corrente, com todos os elementos formando um todo e cada elemento ligado e dependente de um e ligando condicionalmente um outro” (MURACHCO, 2001, Língua grega, p. 15). Portanto, a despeito da fragilidade do nosso idioma, no grego é impossível, devido à organicidade lógica do encadeamento semântico dos enunciados, você pegar uma frase solta do discurso do seu interlocutor e, limitado a ela, tirar conclusões sobre o discurso todo dele ou, do mesmo modo, tirar conclusões sobre seu caráter e a maneira como ele compreende o cosmos.
Não foi à toa que os gregos inventaram o procedimento dedutivo: ouve-se atentamente o estabelecimento e a defesa de certas premissas, isto é, das proposições afirmativas ou negativas e, só então, chega-se a uma conclusão (syllogismos). Segundo o próprio Aristóteles, “a partir de determinadas colocações segue-se com necessidade (ex anankes) algo diferente disso” (ARISTÓTELES, An. pr: I 1, 24b-18-20), ou seja, algo diferente do que foi estabelecido lá nas premissas. Deste modo, estabelece-se uma exigência fundamental a quem se dispõe ao diálogo: ser obrigado acompanhar passo a passo cada etapa de desenvolvimento de um raciocínio. Sim, há uma diferença fundamental entre o procedimento científico e o procedimento adotado em disputas políticas ou intelectuais; e, justamente por isso, os gregos também distinguiram “silogismo”, enquanto método de demonstração científica, da “dialética”, como técnica de discussão (dialegesthai), em que há claramente uma disputa (agon) de opiniões (doxa). Não obstante a diferença entre “demonstração científica” e o “embate entre opiniões” dependa basicamente do estatuto epistemológico das premissas e do quanto somos capazes de acompanhar as suas justificações (logon didonai), o silogismo depende de proposições verdadeiras (apodeiktikos) enquanto que a dialética as proposições partem de lugares comuns (endoxa) previamente aceitas para iniciar qualquer debate. O animal político (zoon politikos) é fundamentalmente o animal que fala (zoon logikon) e, na mesma proporção, põe-se à escuta (Cf. BRAGUE, R. 1988, Aristote et la question du monde, p. 261-266).



"Para conseguir sua maturidade o homem necessita de um certo equilíbrio entre estas três coisas: talento, educação e experiência." (De civ Dei 11,25)
