Arquivo da categoria: Política

Análises políticas do ponto de vista mais conservador, levando em conta os temas clássicos e filosóficos. Pensar como o homem realiza plenamente sua humanidade na comunidade de outros homens.

O homem insuficiente

A autonomia do indivíduo não é um fato natural, embora a liberdade seja um princípio da nossa condição, não há soberania absoluta para o homem. Nascemos em uma família, independente da nossa vontade, e da qual, em última análise, não temos como renunciar.  Pode haver renúncia jurídica, mas jamais renúncia desse dado radical da nossa historicidade: somos filhos, irmãos, netos, sobrinhos e primos; vivemos em uma época específica, em um lugar específico etc.

A autonomia é uma conquista limitada, fruto de um esforço pessoal radical em um ambiente cultural adequado, que se ganha com muita dificuldade e se perde com extrema facilidade. A liberdade é mais difícil do que se imagina: se é uma virtude, então corre o risco de se despencar no vício, no servilismo. Não se chega à liberdade por decretos. E ninguém faz mal a si sem fazer mal a outro.

A ideia de que o homem é uma unidade autônoma autorreferente não passa de uma imagem vã e antinatural. O coletivismo radicaliza a relação de um homem com sua comunidade, enquanto o individualismo radicaliza a autonomia soberana do indivíduo.

O primeiro constrói governos em nome do “social” – símbolo máximo da relação comunitária do homem –, enquanto o segundo nega a função do governo em nome do individual – símbolo da soberania da determinação de um homem.  Sendo assim, não se trata de buscar o meio termo, mas compreender o homem em sua totalidade. Só a partir da antropologia filosófica chega-se à filosofia política.

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Arma não mata

artwork_images_425324282_503289_jean-tinguelyO pressuposto fundamental do pacifismo desarmarmentista é nobre na medida em que é estúpido: busca erradicar uma parcela considerável da violência desarmando o cidadão comum por meio da força coercitiva de estado. É nobre por pretender a paz entre os homens e estúpido por não compreender que a arma de fogo não passa de um agente instrumental da violência e não a causa. Arma não mata.

A consequência imediata desse excesso de nobreza e estupidez é que, no final das contas, a violência sempre é quitada com suor e sangue do cidadão comum (quem busca levar a vida do modo mais razoável possível dentro do espírito das leis). O homem comum não saca uma arma com a intenção de matar seus desafetos e muito menos faz “um corre” em vista de suas conquistas. A arma de fogo é, por natureza, moralmente neutra. Afinal, quem mata é o homem.

Na realidade os únicos beneficiados com políticas de desarmamento são o estado e quem vive à margem das leis: políticos e bandidos. A sociedade civil sempre foi esmagada por essas duas forças: a força motora de crescimento do poder do estado, inversamente proporcional ao enfraquecimento do poder dos indivíduos, e a força desestabilizadora do poder de criminosos, inversamente proporcional à estabilidade moral e jurídica que rege as relações entre os homens.

O poder do estado e o poder dos criminosos comungam de uma mesma natureza parasitária e opressora: o estado detém o monopólio do uso da força e, por isso, da arma de fogo. O criminoso está pouco se lixando para quem detém a legitimidade do monopólio da violência – ora, pra quem já vive à margem da lei não faz o menor sentido a determinação de uma lei de desarmamento.

A presença benevolente do estado paternalista enfraquece a fibra moral da sociedade civil; a ação criminosa atua justamente nesse enfraquecimento. O problema da violência não diz respeito à quantidade de arma de fogo circulando na sociedade civil, mas à quantidade de parasitas que mimetiza a ação do poder soberano do estado. Como já demonstrava Santo Agostinho, a diferença entre um chefe de estado e um chefe de quadrilha está no tamanho e não na natureza.

Contudo, a discussão de fundo sobre o desarmamento pode ser resumida nos seguintes termos: o controle estatal de armas de fogo aumentará ou diminuirá o número de mortes por armas de fogo e, consequentemente, os números da violência?

Pacifistas acreditam, a despeito dos fatos, na nobreza da alma humana e postulam o seguinte princípio – uma espécie de filho bastardo do determinismo cientificista: menos armas, menos violência; mais armas, mais violência. Por outro lado, o homem atento aos fatos sabe que a realidade humana não funciona bem assim: quem escolhe matar é o homem; e a violência é, em última instância, derivada da tentação de subjugar o outro, portanto, derivada de péssimas escolhas humanas. Arma nunca escolhe matar.

A verdade é o que princípio determinista do conto de fadas dos pacifistas – “menos armas, menos violência; mais armas, mais violência” – não faz o menor sentido em um mundo de homens reais. Se de repente todas as armas de fogo desaparecessem da face da Terra, inventariamos outros meios para atacar, roubar, matar e, na mesma proporção, nos defender.

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Publicado originalmente para Movimento Viva Brasil

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Estado laico e sem cartilha

GoyaA única forma de obter educação de qualidade é oferecer educação particular. Assim como o estado é laico, o estado também deve ser neutro em matéria de formação de uma consciência.

Assim como não cabe ao estado dizer no que se deve ou não acreditar, também não cabe dizer o que se deve ou não aprender. Em outras palavras, se não cabe ao estado o vínculo com um credo religioso específico, também não cabe a tutela do ensino.

O estado não tem de obrigar ninguém a estudar, essa obrigação é única e exclusiva da família. Só a educação particular cumpre a tarefa de oferecer o desenvolvimento adequado das faculdades mentais humanas, pois só a educação particular é livre.

Por outro lado, a educação pública, padronizada por um amontoado de regras estatais, não oferece senão uniformidade mecânica à diversidade humana e às liberdades individuais.

Qual seria a ciência oficial do Estado senão a burocracia? Só nisso o estado é perito. E quando o estado fracassa no que diz respeito à educação, então ele gera niilismo e decadência; quando é eficiente, a consequência lógica não é outra senão instaurar mais doutrina estatal, isto é, totalitarismo.

Como uma consciência poderá florescer se desde a mais tenra idade é coagida a obedecer uma pilha de regras inúteis sobre como acumular informações insignificantes às experiências pessoais. A consciência não deve ser formada pelo estado justamente para não ser transformada num mero instrumento da manipulação estatal.

O estado, ao pretender educar as pessoas, na verdade, só desenvolve a capacidade de aniquilá-las. Antes um analfabeto livre do que um escravo letrado.

Pergunta que não quer calar: mas como as pessoas sem condições financeiras poderiam arcar com as despesas da educação de seus filhos? Ora, ninguém faz essa pergunta quando se trata de pagar as contas do celular, o boleto da TV a Cabo e o carnê das Casas Bahias, mas se torna uma preocupação lastimável quando o que está em jogo é nas mãos de quem um filho será doutrinado – desde que seja de grátis.

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Desmascarando Black Blocs

downloadA condição fundamental da comunidade política parte do reconhecimento da relação direta entre homens concretos. No “nós” da comunidade revela-se um dado originária da condição humana: a relação “eu-tu” contrária a forma de relação “eu-isso”.

Como diz o grande filósofo judeu Martim Buber: “a vida do ser humano não se restringe apenas ao âmbito dos verbos transitivos. Ela não se limita somente às atividades que têm por objeto. Eu percebo alguma coisa. Eu experimento alguma coisa, ou represento alguma coisa, ou sinto alguma coisa, eu penso em alguma coisa. A vida do ser humano não consiste unicamente nisto ou em algo semelhante. Tudo isso e o que se assemelha a isso fundam o domínio do ISSO. O reino do TU tem, porém, outro fundamento”.

A capacidade de o ser humano comunicar pressupõe, portanto, essa relação EU-TU. A comunidade política emerge desse dado originário e constitutivo da natureza humana. Política é a disputa que pressupõe a realidade do encontro, do diálogo face-à-face, da disputa entre homens e não entre coisas. Sem máscara, cada intrigante Black Blocs não passa de um sorriso apático um rostinho vazio.

Disputa no puro confronto é guerra. O gesto é significativo: quando um bando de adolescentes bota máscaras, isto é, um bloco sem qualquer referência à ordem da experiência humana, então tudo se reduz à relação do puro ISSO-ISSO. Em outras palavras, não há relação e, em vista disso, tudo é possível em um jogo de vale-tudo sem alma. Na atuação performática das máscaras dos agentes teatrais dá-se origem ao processo de esvaziamento da comunidade política. A dinâmica é diabólica.

A experiência do black blocs é, em sua essência, anti-política e, por esta razão, indigna de consideração humana. A despersonalização da ação política implica, necessariamente, o ocaso da civilização. A estetização do caos tão somente sua forma de expressão. Continua Buber: “a relação imediata (EU-TU) implica numa ação sobre o que se está face-a-face” e não numa ação submersa nesse paraíso imaginário do lugar-nenhum conduzido por um bloco.

Os Blacks blocs não são o início de uma nova forma revolucionária de os jovens atuarem politicamente; muito pelo contrário, na verdade, eles repetem as mais antigas formas de decadência da experiência do político cuja “vitória” não institui nada além de sangue, terror e barbárie.

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A lógica do coletivismo

escher31 escada acima e escada abaixoUm fenômeno trágico assola meu bairro aqui da Cidade de Sorocaba: diários assaltos a residências. Os números são impressionantes para qualquer cultura que se pretenda civilizada.

Não precisamos participar de uma guerra para vivenciá-la. De uns anos para cá invadir casas e matar pessoas tornaram-se práticas corriqueiras. E o descaso político impressiona mais ainda.

O que é pior para a difusão da violência do que ser tolerável com ela, tratá-la como uma “realidade”? A violência não pode ser tolerada como realidade! Isso não é contraditório, já que nem tudo é digno de ser tolerável. O Bem, a Beleza e a Justiça são realmente difíceis.

Há inúmeras explicações para esse fenômeno dos assaltos e da gratuidade da violência. Talvez uma das mais absurdas e insuperáveis seja a insistência ideológica da mentalidade coletivista que prescreve a ideia de que não existe propriedade privada. Foram anos de difusão desse “sistema ideológico”. O que é dos outros é de todos, portanto a vida humana já não é mais de ninguém. O niilismo social tem raízes bem mais complexas.

A insistência na lógica do condicionamento social também revela a face absurda dos intelectuais de esquerda: “fulano rouba e mata porque não teve oportunidades”. Criminosos são tratados como as únicas vítimas aceitáveis. Famílias estão desesperadas, estão sendo massacradas diariamente. Você sai pra trabalhar com medo, você sai pra comprar pão com medo, você sai pra levar o cachorro pra passear com medo, você sai pra jogar dominó na praça com medo.

A “rua” tornou-se o símbolo não mais da comunidade, mas da total desintegração social. As famílias já não possuem estruturas de autoproteção, pois já não vivem mais a experiência da ordem de comunidade. Um pai de família fica à mercê de um bandido como fica à mercê de um raio cair na sua cabeça. Com a diferença de que a chance de um raio cair na cabeça é bem menor do que alguém invadir tua casa e simplesmente tomar tuas coisas; e deve torcer pra que o bandido seja “gente boa” e não leve a vida dos teus filhos.

O determinismo sociológico dos intelectuais de esquerda retrocederam o processo civilizatório em milênios. Explicar as causas sociológicas para o fato de isso acontecer não resolve o problema imediato – e único que realmente interessa – de uma mãe ou de um pai desesperados por terem perdido o filho em uma ação estúpida e covarde, mas “justificada” por uma massa de “intelectuais”.

Política sempre foi uma área prática e normativa enquanto sociologia apenas descritiva. Reduziram a resolução desse seríssimo problema existencial ao mero dado sociológico e descritivo das estatísticas. Pessoas estão morrendo a fim de satisfazer não apenas o desejo desordenado de um criminoso, mas o desejo perverso desses reducionistas. Afinal, o que é a família de um burguês morto senão o próprio processo de instauração de regime coletivista (regido, claro, pelo terror)?

Mas diferente do intelectual que simplesmente “explica” ao “descrever as causas” desse fenômeno, quem deve responder pelas terríveis escolhas são os criminosos. O primeiro passo da instauração da injustiça é negar o postulado da liberdade de consciência e do reconhecimento de que a vida do outro é um limite intransponível.

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