Category: Política

Os bárbaros e os riscos da democracia

Por , abril 9, 2013 10:18 pm

mc-escher-encounter-blog1originalmente publicado em Ad Hominem – Humanidades e outras falácias

Há uma peculiaridade no idioma grego clássico que pode nos ajudar a refletir a respeito não apenas do surgimento da democracia, mas do seu próprio modus operandi: é impossível compreender o que alguém pretende dizer sem ouvir até o final o que será dito. A sintaxe grega – tão orgânica e lógica – não permite induções apressadas do tipo “Ah, já entendi aonde você quer chegar!”, típicas do nosso idioma e tão expressivas em nossas disputas intelectuais e políticas. Em grego, ou você escuta até o final ou vira as costas e deixa seu interlocutor falando sozinho sem saber o que ele realmente queria te comunicar. Segundo o filólogo Henrique Murachco, em grego “todas as relações dentro do enunciado estão encadeadas organicamente, logicamente, como os elos de uma corrente, com todos os elementos formando um todo e cada elemento ligado e dependente de um e ligando condicionalmente um outro” (MURACHCO, 2001, Língua grega, p. 15). Portanto, a despeito da fragilidade do nosso idioma, no grego é impossível, devido à organicidade lógica do encadeamento semântico dos enunciados, você pegar uma frase solta do discurso do seu interlocutor e, limitado a ela, tirar conclusões sobre o discurso todo dele ou, do mesmo modo, tirar conclusões sobre seu caráter e a maneira como ele compreende o cosmos.

Não foi à toa que os gregos inventaram o procedimento dedutivo: ouve-se atentamente o estabelecimento e a defesa de certas premissas, isto é, das proposições afirmativas ou negativas e, só então, chega-se a uma conclusão (syllogismos). Segundo o próprio Aristóteles, “a partir de determinadas colocações segue-se com necessidade (ex anankes) algo diferente disso” (ARISTÓTELES, An. pr: I 1, 24b-18-20), ou seja, algo diferente do que foi estabelecido lá nas premissas. Deste modo, estabelece-se uma exigência fundamental a quem se dispõe ao diálogo: ser obrigado acompanhar passo a passo cada etapa de desenvolvimento de um raciocínio. Sim, há uma diferença fundamental entre o procedimento científico e o procedimento adotado em disputas políticas ou intelectuais; e, justamente por isso, os gregos também distinguiram “silogismo”, enquanto método de demonstração científica, da “dialética”, como técnica de discussão (dialegesthai), em que há claramente uma disputa (agon) de opiniões (doxa). Não obstante a diferença entre “demonstração científica” e o “embate entre opiniões” dependa basicamente do estatuto epistemológico das premissas e do quanto somos capazes de acompanhar as suas justificações (logon didonai), o silogismo depende de proposições verdadeiras (apodeiktikos) enquanto que a dialética as proposições partem de lugares comuns (endoxa) previamente aceitas para iniciar qualquer debate. O animal político (zoon politikos) é fundamentalmente o animal que fala (zoon logikon) e, na mesma proporção, põe-se à escuta (Cf. BRAGUE, R. 1988, Aristote et la question du monde, p. 261-266).

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As banais condições de toda democracia

Por , abril 3, 2013 11:41 pm

Pericles, Athen. politician, c.500BC</p><br />
<p>Chr. - 429 BC.</p><br />
<p>- 'The Age of Pericles'. -</p><br />
<p>(Meeting of the most important artists,</p><br />
<p>poets and philosophers of the time).</p><br />
<p>Print, later colouring, after the</p><br />
<p>painting, 1853, by Philipp von Foltz</p><br />
<p>(1805-1877).</p><br />
<p>

Texto originalmente publicado em Gazeta do Povo.

Há uma peculiaridade no idioma grego clássico que pode nos ajudar a refletir a respeito não apenas do surgimento da democracia, mas do seu próprio modus operandi: é impossível compreender o que alguém pretende dizer sem ouvir até o fim o que será dito. A sintaxe grega não permite induções do tipo: “ah, tá, já entendi aonde você quer chegar!”, tão típicas do nosso idioma e tão expressivas em nossas disputas intelectuais e políticas. Em grego, ou você escuta até o fim ou vira as costas e deixa seu interlocutor falando sozinho, sem saber o que de fato ele queria lhe comunicar.

A verdade é que, historicamente, a democracia não surgiu como um valor em si mesmo, mas apenas como um tipo de governo “no qual a ‘maioria’ detém o poder”, isto é, em que os homens que eram considerados livres detinham a possibilidade de resolver assuntos da cidade por meio do uso da palavra persuasiva (peithein) que se justifica (logon didonai) em uma discussão (dialegesthai) em que há claramente disputa (agon) de opiniões (doxa) e não mediante o uso arbitrário da autoridade do berro ou da espada.

Percebe-se que ela tem seus riscos e que, portanto, não é perfeita – foi duramente criticada por Platão, sobretudo por ter sido a principal responsável pela morte de Sócrates. Entretanto, a democracia originou-se em oposição à aristocracia ou em oposição às antigas monarquias guerreiras, caracterizando-se, assim, principalmente por codificar em escrita as suas leis; a essas, sim, portanto, atribuía-se um valor em si, enquanto a democracia propriamente dita era tão somente o meio pelo qual se estabeleciam as leis.

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O pesadelo da escola imaginária

Por , fevereiro 1, 2013 10:59 pm

platao aristóteles1. Escola imaginária: É lugar-comum achar que a estrutura política-pedagógica de uma escola deva ser invariavelmente mais ou menos assim: o “Diretor”, no alto da sua gloriosa e intocável majestade, ocupa o topo do Olimpo, e nas ocasiões em que circula na escola se manifesta transfigurado no avatar do todo poderoso. Nos cargos imediatamente abaixo estão os de coordenadores e assistentes, depois os de funcionários administrativos: o “pessoal” da limpeza, a merendeira, a bibliotecária, a secretária etc.

Os professores ocupam o último patamar, enquanto os alunos estão no limbo da absoluta insignificância, como uma massa amorfa, sem vida, prontos a servirem de capacho às ideologias e frustrações dos professores e aos tormentos do todo poderoso diretor que precisa alimentar a máquina e seu patético ego semi-divino.

A vida na escola se transformou em verdadeiro campo de batalha entre alunos e professores, um odeia o outro, como em uma guerra, sem saber direito as razões. Simplesmente se deve combater a ameaça. O aluno se vê ameaçado pelo professor porque já se acha um homem livre e responsável, porém é obrigado a ouvir qualquer inutilidade. O professor se sente ameaçado pelos alunos porque, afinal, aqueles olhares de tédio e desinteresse constrangem até uma vaca introspectiva ruminando do pasto.

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O ocaso do oportunismo político na Pontifícia Universidade Católica

Por , dezembro 2, 2012 9:11 pm

Thomas-Aquinas2É interessante tomar consciência de que a “práxis política” se determinada muito mais pelo apego irracional ao imaginário nostálgico de certas fantasias históricas do que pela efetiva capacidade da “razão” mediar intrincadas relações e disputas entre os homens. A distinção política “direita” e “esquerda” já não ajuda muito, uma vez que tende a fornecer “chaves” quase que absolutas de compreensão puramente abstrata, e não a descrição genuína das experiências reais de uma consciência pessoal diante de seus dilemas políticos. Nesse sentido falar em “direita” não é outra coisa senão buscar a unidade conceitual para descrever o apego irrestrito do imaginário simbólico às instituições, enquanto que “esquerda” descreve o apego do imaginário simbólico às revoluções. Um vive a tradição o outro, por consequência lógica, a sua negação. Portanto é equivocado buscar resolver batalhas políticas à luz de dois conceitos irredutíveis.

Os “manifestantes da PUC”, isto é, toda comunidade envolvida (funcionários, alunos e, principalmente, alguns professores) nos atos contra a nomeação da nova reitora perderam, não sei se por falta de tentativa, mas certamente por falta de boa estratégia, a excelente oportunidade em relação à possibilidade de estabelecer aproximação com a Igreja Católica. Não no sentido de aceitar “dogmas” do catolicismo enquanto “conversão religiosa”, mas no sentido de lembrar que a própria PUC – Pontifícia Universidade Católica – é propriedade particular da Igreja Católica. O que está em jogo é o inequívoco embate entre valores católicos, como condição de existência de uma Universidade Católica, e valores não católicos, expressos por aqueles que de alguma forma não se sentem à vontade em viver de acordo ou, no mínimo, respeitar a existência da presença da religião e, no caso em questão, da Igreja Católica se intrometendo na vida da universidade.

Um exemplo mais brutal disso foi levar Zé Celso Martinez e suas agressões gratuitas no “Pátio da Cruz” ao coração da universidade católica: “O movimento político da PUC ficou forte e vai tocar o mundo. O papa é um ditador. A Igreja castra e o catolicismo é antropófago”. “O Vaticano tem que entrar pelo cano! Chega!”. Outro erro foi levar as Católicas pelo Direito de Decidir e tantos outros pequenos atos expressos em discursos inflamados e cartazes com dizeres estúpidos e ofensivos categorizando e reduzindo os problemas reais que a universidade vem enfrentando ao longo dos últimos anos em meras diferenças e opções ideológicas. Os responsáveis por essas manifestações “culturais” são, na verdade, grandes irresponsáveis. Ninguém que conheça Zé Celso, por exemplo, esperaria menos dele, e é muito improvável que a ideia tenha partido de algum aluno. O esvaziamento da responsabilidade política é diretamente proporcional a sua estetização, e nada é mais medonho do que a constrangedora tentativa de justificação do ato de Zé Celso do que o apelo a uma suposta e embaraçosa “erudição” crítica.

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Do Coração da Igreja ao gozo revolucionário: comentários sobre a PUC-SP*

Por , novembro 23, 2012 9:11 pm

Texto do meu querido amigo Gabriel Ferreira publicado originalmente em seu site.

Queda LuciferNa epígrafe de O conceito de Angústia, S. Kierkegaard lamentava que o tempo das distinções havia passado e que, quem quer que amasse fazer distinções, era visto como uma alma excêntrica. Se isto valia para o século XIX, não é menos verdade que vale ainda hoje. Começo com este reparo porque penso que, em primeiro lugar, grande parte das reações acerca da nomeação da Prof. Dr. Anna Cintra pelo Grão-Chanceler da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, o Cardeal Dom Odilo Scherer, como Reitora desta universidade provêm de uma série de distinções não feitas e da ingerência de elementos absolutamente estranhos a uma discussão razoável. E em segundo lugar, o faço não sem um certo muxoxo porque sei que até o fim deste texto, muitos dos que o lerão borrarão como num passe de mágica todas as distinções que pretendo fazer aqui. Que algumas distinções evidentemente devem ser feitas, percebe-se por um sem número de manifestações que diariamente se podem ver na internet ou na mídia tradicional, que tratam um sem número de elementos presentes nos acontecimentos e nas reações a estes como se constituíssem um bloco único e um único problema que, pelo que se vê, poderia ser expresso na seguinte asserção: a Aquidiocese de São Paulo (leia-se Igreja Católica), através de D. Odilo e da Fundação São Paulo, estão desrespeitando a democracia e a autonomia universitárias e ingerindo excessivamente na PUC-SP. Pois bem, vamos às explicitações e distinções.

A Universidade Católica

 Não deveria ser uma informação nova para aqueles que se imiscuem neste assunto, que a Igreja dispõe de alguns documentos que dispõem sobre as diretrizes de suas universidade e, em especial, das Pontifícias. Entre tais documentos, o conhecimento da Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiæ (Do Coração da Igreja), do Papa João Paulo II.

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