Fides et Caritas: o limite da exigência teórica do evidencialismo ateu
Apesar de o ateísmo ser um fenômeno complexo e multifacetado, é certo que há um tipo de ateu que diz não acreditar em Deus por lhe faltar evidências. Ora, ao analisar de perto o ateu que diz não acreditar em Deus por essa razão específica, por coerência lógica e moral, pode-se concluir que ele não poderá aceitar o amor ou nem “provar” que ama alguém, justamente por que quando alguém diz “eu te amo” essa expressão não traz a evidência que garantiria a sua veracidade. Entre o discurso erótico e o discurso religioso há uma semelhança congênita, isto é, partilham, pelo menos nesse ponto, dos mesmos dilemas.
A expressão “eu te amo” não tem outra referência a não ser a experiência imediata interna de quem a pronuncia, e tal como a experiência religiosa, não há como comprovar ou verificar a sua veracidade por algum tipo de experiência pública. Portanto não gera uma referência ao qual possa ser evidenciada e verificada em comunhão direta, ou seja, apenas intersubjetivamente consentida por meia de um ato de fé (fides), isto é, o assentimento àquilo que é inacessível ao conhecimento teórico, porém consentido naquilo que é necessário pressupor como condição fundamental para o estabelecimento de vínculos maduros entre as pessoas.
Nesse sentido, ser ateu não tem nada a ver com “exigências teóricas”, antes tem muito mais a ver com a recusa existencial da ordem transcendente, infinita, que fundamenta a nossa finitude. O ateísmo legítimo, isto é, não cientificista, só pode se dar na tomada de consciência dessa diferenciação derivada da experiência de revolta, recusa e não aceitação de Deus. A tomada de consciência – na minha opinião equivocada, mas isso não está em questão agora – da possibilidade de autoafirmação e negação radical do seu estatuto de criatura, da recusa da sua condição de ser finito e insuficiente. O ateu sério reconhece essa fratura ontológica em sua natureza humana: Fé e Amor (Fides et Caritas) impõem, decisivamente, os limites a certas exigências estúpidas.
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"Para conseguir sua maturidade o homem necessita de um certo equilíbrio entre estas três coisas: talento, educação e experiência." (De civ Dei 11,25)
