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Os primórdios dos erros filosóficos e o excesso de certezas científicas – parte primeira

portinari_retirantesNesse debate acerca dos direitos dos animais, uma coisa ficou certa: a grande maioria dos defensores do estatuto do direito dos animais não faz ideia do que seja filosofia, antropologia filosófica, ética filosófica, filosofia do direito e filosofia política.

Persisto nisso: são um bando de palpiteiros ignorantes. Confundem coisas básicas: antropologia filosófica de antropologia científica e cultural; estatuto ontológico com estatuto axiomático e normativo. Colocam Aristóteles, Tomás de Aquino e Descartes no mesmo saco e acham que a ciência empírica naturalista progressista é a única comprometida com os fatos e com a verdade!

Anderson Furlan, por exemplo, respondendo à pergunta formulada pelo editorial do Gazeta do Povo, diz uma sequência de boçalidades. Seguem as primeiras: “Nos primórdios, as necessidades dos bandos de caçadores-coletores e das primeiras civilizações conduziram os seres humanos à apropriação dos animais, principalmente para alimentação. A necessidade se transformou em cultura, e a cultura encontrou na ignorância científica e em postulados religiosos contraditórios fundamentos para a instrumentalização de animais, sem restrições”.

Ora, para título de efeito retórico, essa noção de “primórdios” significa jogo de palavras, para as evidências, não significa nada! O que vem a ser “os primórdios” no que se refere ao estatuto da dignidade do homem e dos animais? O acesso da investigação “histórica” aos supostos "primórdios" não fornece a possibilidade de compreensão do que é o homem. Nesse sentido, ele confunde antropologia filosófica com antropologia cultural.

Furlan, que pressupõe nitidamente aquele positivismo progressista bocó da ciência, deixa isso claro na sequência do parágrafo: “a necessidade se transformou em cultura, e a cultura encontrou na ignorância científica e em postulados religiosos contraditórios fundamentos para a instrumentalização de animais, sem restrições”.

Analisemos. Os primórdios é o “lugar-nenhum” da fantasia progressista, mais tecnicamente pode ser tomado no sentido de “estado de natureza” – do qual falavam os contratualistas – que ninguém nunca teve a oportunidade de acessar cientificamente, pois não é um objeto empírico, uma vez que o homem é homem desde que nos autoconhecemos como tal! “Nos primórdios” estão depositadas todas as vaguezas dos progressistas.

Para Furlan a condição do “estado de cultura” é a “necessidade”, ou seja, a gênese da cultura é a “necessidade” natural do homem. E a “gênese” dos usos de “animais sem nenhuma restrição” legal teve dois fundamentos: a “ignorância científica” e os “postulados religiosos contraditórios”! Afinal, só postulados científicos sábios do Furlan tornam animais fins e portadores de direito e não meios -- pra um churrasquinho!

A verdade é que Furlan também não está jogando com os fatos, mas tão somente com a especulação sabichona do positivismo progressista: “nos primórdios” como era a relação do homem com a natureza? Uma relação de “necessidades”, continua, “dos bandos caçadores-coletores e das primeiras civilizações”.

Há uma diferença importante aqui. Essas “necessidades” intrínsecas do estado natural do homem estudado, por exemplo, pela antropologia cultural … Continue Reading ››

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Disputatio: HUMANOS E ANIMAIS DEVEM TER OS MESMOS DIREITOS?

Titian-Tiziano-Vecelli-Allegory-of-Time-Governed-by-PrudenceO jornal Gazeta do Povo fez um síntese das opiniões contrárias acerca dos direitos dos animais. Escrevi um artigo mostrando o problema de que é, ontologicamente, impossível atribuir equivalência de direitos para homens e animais. O autor abaixo do meu, Anderson Furlan, acha que não, que animal tem o mesmo direito e que embrião humano não é digno de direito. Colocarei os dois artigos na sequência e escreverei outro post mostrando os erros básicos do meu “adversário” desta quaestio disputata.

Não – por Francisco Razzo

O animal não é, por natureza, um ser político. Em vista dessa condição, animais não possuem direitos. E por uma razão muito simples: o direito é propriedade fundamental de seres que reconhecem, evocam e comunicam o que lhe é próprio, a parte que lhe cabe, o que é seu, bem como reconhecem aquilo que é de cada um, isto é, o justo.

A pior coisa para o direito – e aqui está uma de suas principais fragilidades – é a possibilidade de a justiça ser corrompida no delírio da utopia: quando o critério fundamental de medida do justo está submetido aos devaneios da imaginação utópica, então já não há mais condições de se falar da realidade efetiva do direito.

A visão de que animais devem ter direitos equivalentes aos dos seres humanos implica um desses ideais de mundo que precisa desconfigurar a realidade das coisas a fim de fazer sentido. No mundo da fantasia tudo é possível: tubarões, leões, escorpiões, raposas, coelhos, zebras, cordeiros... e humanos são todos amigos e vivem felizes para sempre: Imagine all the people (principalmente mulheres e baratas) living life in peace.

Por que seres humanos têm direitos e os animais não têm? Ora, porque o ser humano é o único – dentre todos os animais – capaz de reconhecer o que é seu e, só por isso, reclamar o que lhe é próprio; além disso, também é capaz de reconhecer o que é próprio dos outros, inclusive dos animais.

Não há direito quando a balança da justiça é unilateral. E não é possível estabelecer relações morais, políticas e, consequentemente, jurídicas com animais a não ser numa via de mão única. Direito pressupõe a relação entre partes, ou seja, seres profundamente conscientes de sua própria natureza – racional, autoavaliativa, volitiva, comunicativa, livre e limitada.

Meu cão mata o gato do vizinho. Quem responderá por esse dano? Eu, que responderei ao meu vizinho (política ou juridicamente)! Não o meu cão a uma suposta comunidade política ou jurídica formada por gatos. A condição de todo direito também implica a realidade da comunidade política – definida pela comunidade dos seres conscientes e falantes – cuja finalidade consiste em criar meios a fim de se distribuir bem a parte que pertence a cada um, os membros dessa comunidade, por direito.

Ser capaz de responder … Continue Reading ››

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Fides et Caritas: o limite da exigência teórica do evidencialismo ateu

venere-allo-specchio-diego-velazquez-1347061152_bApesar de o ateísmo ser um fenômeno complexo e multifacetado, é certo que há um  tipo de ateu que diz não acreditar em Deus por lhe faltar evidências. Ora, ao analisar de perto o ateu que diz não acreditar em Deus por essa razão específica, por coerência lógica e moral, pode-se concluir que ele não poderá aceitar o amor ou nem "provar" que ama alguém, justamente por que quando alguém diz "eu te amo" essa expressão não traz a evidência que garantiria a sua veracidade. Entre o discurso erótico e o discurso religioso há uma semelhança congênita, isto é, partilham, pelo menos nesse ponto, dos mesmos dilemas.

A expressão "eu te amo" não tem outra referência a não ser a experiência imediata interna de quem a pronuncia, e tal como a experiência religiosa, não há como comprovar ou verificar a sua veracidade por algum tipo de experiência pública. Portanto não gera uma referência ao qual possa ser evidenciada e verificada em comunhão direta, ou seja, apenas intersubjetivamente consentida por meia de um ato de fé (fides), isto é, o assentimento àquilo que é inacessível ao conhecimento teórico, porém consentido naquilo que é necessário pressupor como condição fundamental para o estabelecimento de vínculos maduros entre as pessoas.

Nesse sentido, ser ateu não tem nada a ver com "exigências teóricas", antes tem muito mais a ver com a recusa existencial da ordem transcendente, infinita, que fundamenta a nossa finitude. O ateísmo legítimo, isto é, não cientificista, só pode se dar na tomada de consciência dessa diferenciação derivada da experiência de revolta, recusa e não aceitação de Deus. A tomada de consciência - na minha opinião equivocada, mas isso não está em questão agora - da possibilidade de autoafirmação e negação radical do seu estatuto de criatura, da recusa da sua condição de ser finito e insuficiente. O ateu sério reconhece essa fratura ontológica em sua natureza humana: Fé e Amor (Fides et Caritas) impõem, decisivamente, os limites a certas exigências estúpidas.

Há duas possíveis objeções que podem ser feitas a esse tipo de comparação. A primeira, mais fácil de ser refutada, deriva de uma concepção cientificista das experiências de subjetividade e tem apoio no que vou chamar de “reducionismo materialista neurocientífico”. A segunda objeção, por sua vez, deriva de um postulado filosófico e tem apoio em concepções epistemológicas da subjetividade.

O reducionismo materialista neurocientífico é a tese segundo a qual a neurociência pode provar a existência do amor – e até negar a legitimidade da experiência religiosa – mediante o mapeamento do cérebro. O problema em defender a tese de que a neurociência faz um mapa do cérebro e a partir disso consegue "provar a existência do amor e de outros sentimentos" não refuta o que foi apresentado por algumas razões:

Primeiro, mapear o cérebro, seja lá qual for a tecnologia empregada, não significa … Continue Reading ››

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A fé na criação e a Teoria Evolucionista

Bento XVI. Dogma e Anúncio.

jeromeQuando, em meados do século XIX, Charles Darwin desenvolveu a idéia da evolução de todos os seres vivos, questionando assim radicalmente a concepção tradicional da constância das espécies criadas por Deus, desfechou uma revolução da imagem do mundo que em alcance não fica atrás daquela que para nós está ligada ao nome de Copérnico. Apesar da revolução copernicana que destronou a Terra, alargando sempre mais para o infinito as dimensões do Universo, no conjunto, tinha ficado de pé o arcabouço firme da antiga imagem do mundo, o qual continuava a ser afirmado sem mudança, principalmente em relação ao limite temporal de seis mil anos calculado segundo as cronologias bíblicas. Algumas observações podem ilustrar a naturalidade hoje quase inimaginável com que então se retinha o quadro temporal estreito da imagem bíblica do mundo.

Quando Jacó Grimm publicou em 1848 sua “História da língua alemã”, para ele a idade de seis mil anos da humanidade era uma suposição incontestada e que não necessitava de exame. W. Wachsmuth exprime o mesmo com grande certeza na sua reconhecida “História geral da cultura”, aparecida em 1850, e que nesse ponto não se distingue em nada da história geral do mundo e dos povos que Cristiano Daniel Beck havia publicado em 1813, em segunda edição. Poderíamos multiplicar os exemplos sem dificuldade. Bastam estes para mostrar em que horizonte estreito se movia, ainda faz cem anos, a nossa imagem da história e do mundo, até que ponto estava inabalada a tradição, tirada da Bíblia, de uma concepção desenvolvida inteiramente a partir da história judeu-cristã da salvação.

Que revolução devia significar que agora, depois da precedente ampliação imensa do espaço, uma igual remoção dos limites tocava ao tempo e à história. Sob muitos aspectos, as consequências de tal processo até são mais dramáticas do que o podiam as da revolução copernicana. A dimensão do tempo toca o homem de modo incomparavelmente mais profundo do que do espaço. Mesmo hoje a concepção do espaço é relativizada e mudada mais uma vez, perdendo sua figura passível de definição firme e sendo submetida à história, à temporalidade. O homem aparece como o ser que se originou em transformações infinitas, as grandes constantes da imagem bíblica do mundo recuam para distancias incomensuráveis – a noção fundamental da realidade se altera: o devir toma o lugar do ser, a evolução o da criação, a ascensão o da deterioração.

No quadro dessas considerações, não podemos percorrer todo o conjunto de problemas aqui implicados; queremos apenas debater a seguinte questão: as idéias fundamentais da criação e da evolução podem subsistir uma ao lado da outra contra a aparência inicial, sem que o teólogo entre num compromisso pouco honesto, declarando, por motivos táticos, supérfluo o terreno impossível de defender, depois de pouco antes o ter declarado com todo o … Continue Reading ››

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Porque nem sempre o que buscamos é a verdade

06carpeEste texto procura esboçar respostas a duas perguntas colocadas por um colega*: 1) A pessoa que se diz Filósofo, mas usa a filosofia de forma desonesta e tendenciosa, pode ser considerado filósofo? 2) A pessoa que se diz Cientista, mas usa a ciência de forma desonesta e tendenciosa, pode ser considerado cientista?

1. A própria ideia de instrumentalização da filosofia já é a autonegação da sua própria atividade. Chamar para si o título de filósofo não significa nada. O filósofo não usa a filosofia, o filósofo simplesmente filosofa e põe a vida toda nisso! A questão é: o que é ser filósofo? Pra responder isso precisa saber o que é Filosofia.

E o que é Filosofia? Certamente a Filosofia não se reduz à busca da verdade, pois isso geraria grandes problemas, já que "verdade" (os sofistas já mostravam isso tranquilamente) é a propriedade fundamental das crenças, das doxai, isto é, das opiniões. Dizer que a filosofia ou a ciência buscam a verdade não é errado, porém não é filosoficamente – e nem cientificamente – rigoroso.

Filosofia é recuperar a experiência da realidade em detrimento das nossas ideologias, das nossas crenças. E isso não tem nada a ver especificamente com algum tipo de tese defendida pelo positivismo ou Círculo de Viena. No entanto, o procedimento da atividade filosófica, a princípio, emerge como genuína investigação da consistência das nossas próprias crenças.

O ponto de partida pra começar a filosofar é tomar consciência (e isso não é auto evidente, não se dá gratuitamente, a tomada de consciência é a vivência de um drama, de uma crise etc) de que as nossas crenças sobre a realidade não estão devidamente fundamentadas, justificadas e validadas.

Nesse sentido cabe uma série de disciplinas filosóficas: a teoria da justificação, da validação e da fundamentação das assertivas filosóficas e, doutro lado, a teoria da realidade, do objeto, da percepção, ou seja, fenomenologia, lógica, teoria do conhecimento e ontologia. No meio de tudo isso, a antropologia filosófica e a filosofia da consciência. Filosofia se expressa à luz da totalidade da experiência humana, se expressa como busca de suas categorias mais elementares; a realidade é palavra final, o juiz da indagação e problematização filosófica. Não basta o simples “amigo da verdade”! O filósofo deseja a realidade.

Mas o que é "realidade"? Essa pergunta tem como horizonte decisivo o "todo", é indagação reflexiva a respeito da compreensão, da explicação e do sentido último e não meramente descritiva ou mesmo explicativa de eventos particulares, tal como é atividade científica. Então, respondendo a pergunta: é claro que não basta se dizer filósofo,  dizer-se "amante da sabedoria" ou "amante da verdade". Em filosofia se busca, precisamente, a relação direta entre "dizer ser" e "ser efetivamente".

Isso também nos remete ao problema da conduta, da ação humana em vista do fim significativo, mas não apenas psicologicamente significativo, mas … Continue Reading ››

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