Category: Ciência

Fides et Caritas: o limite da exigência teórica do evidencialismo ateu

Por , janeiro 16, 2013 10:47 pm

venere-allo-specchio-diego-velazquez-1347061152_bApesar de o ateísmo ser um fenômeno complexo e multifacetado, é certo que há um  tipo de ateu que diz não acreditar em Deus por lhe faltar evidências. Ora, ao analisar de perto o ateu que diz não acreditar em Deus por essa razão específica, por coerência lógica e moral, pode-se concluir que ele não poderá aceitar o amor ou nem “provar” que ama alguém, justamente por que quando alguém diz “eu te amo” essa expressão não traz a evidência que garantiria a sua veracidade. Entre o discurso erótico e o discurso religioso há uma semelhança congênita, isto é, partilham, pelo menos nesse ponto, dos mesmos dilemas.

A expressão “eu te amo” não tem outra referência a não ser a experiência imediata interna de quem a pronuncia, e tal como a experiência religiosa, não há como comprovar ou verificar a sua veracidade por algum tipo de experiência pública. Portanto não gera uma referência ao qual possa ser evidenciada e verificada em comunhão direta, ou seja, apenas intersubjetivamente consentida por meia de um ato de fé (fides), isto é, o assentimento àquilo que é inacessível ao conhecimento teórico, porém consentido naquilo que é necessário pressupor como condição fundamental para o estabelecimento de vínculos maduros entre as pessoas.

Nesse sentido, ser ateu não tem nada a ver com “exigências teóricas”, antes tem muito mais a ver com a recusa existencial da ordem transcendente, infinita, que fundamenta a nossa finitude. O ateísmo legítimo, isto é, não cientificista, só pode se dar na tomada de consciência dessa diferenciação derivada da experiência de revolta, recusa e não aceitação de Deus. A tomada de consciência – na minha opinião equivocada, mas isso não está em questão agora – da possibilidade de autoafirmação e negação radical do seu estatuto de criatura, da recusa da sua condição de ser finito e insuficiente. O ateu sério reconhece essa fratura ontológica em sua natureza humana: Fé e Amor (Fides et Caritas) impõem, decisivamente, os limites a certas exigências estúpidas.

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A fé na criação e a Teoria Evolucionista

Por , janeiro 7, 2013 1:17 pm

Bento XVI. Dogma e Anúncio.

jeromeQuando, em meados do século XIX, Charles Darwin desenvolveu a idéia da evolução de todos os seres vivos, questionando assim radicalmente a concepção tradicional da constância das espécies criadas por Deus, desfechou uma revolução da imagem do mundo que em alcance não fica atrás daquela que para nós está ligada ao nome de Copérnico. Apesar da revolução copernicana que destronou a Terra, alargando sempre mais para o infinito as dimensões do Universo, no conjunto, tinha ficado de pé o arcabouço firme da antiga imagem do mundo, o qual continuava a ser afirmado sem mudança, principalmente em relação ao limite temporal de seis mil anos calculado segundo as cronologias bíblicas. Algumas observações podem ilustrar a naturalidade hoje quase inimaginável com que então se retinha o quadro temporal estreito da imagem bíblica do mundo.

Quando Jacó Grimm publicou em 1848 sua “História da língua alemã”, para ele a idade de seis mil anos da humanidade era uma suposição incontestada e que não necessitava de exame. W. Wachsmuth exprime o mesmo com grande certeza na sua reconhecida “História geral da cultura”, aparecida em 1850, e que nesse ponto não se distingue em nada da história geral do mundo e dos povos que Cristiano Daniel Beck havia publicado em 1813, em segunda edição. Poderíamos multiplicar os exemplos sem dificuldade. Bastam estes para mostrar em que horizonte estreito se movia, ainda faz cem anos, a nossa imagem da história e do mundo, até que ponto estava inabalada a tradição, tirada da Bíblia, de uma concepção desenvolvida inteiramente a partir da história judeu-cristã da salvação.

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Breve introdução ao problema da Crítica da Razão Pura

Por , novembro 9, 2012 4:51 pm

isaac1INTRODUÇÃO

O objetivo deste texto consiste fundamentalmente em compreender a problemática central da Crítica Razão Pura de Kant. Para este intento, o texto será divido em três partes, a saber: a) contextualização da concepção de Ciência compreendida por Kant; b) contextualização das implicações epistemológicas ligadas ao problema da fundamentação da objetividade em Ciência; c) a compreensão da pergunta fundamental da Crítica da Razão Pura à luz dessa problemática de objetividade, sobretudo no que diz respeito à Metafísica como Ciência.

1. A concepção de Ciência no contexto do desenvolvimento da Crítica da Razão Pura.

Para o contexto filosófico de Kant, Ciência é concebida essencialmente como o conhecimento capaz de dar as razões fundamentais de seus pressupostos elementares e justificar tal conhecimento segundo critérios de universalidade e necessidade. O saber que se pretende verdadeiro é o conhecimento que estabelece critérios de validade de suas demonstrações. Ou seja, a condição de a Ciência se impor como conhecimento universalmente válido é, pois, a sua capacidade de demonstrar a racionalidade da necessidade de suas proposições. Ciência não é concebida senão como conhecimento universal e necessário, mas conhecimento cujo objetivo não é puramente descritivo, mas explicativo. Não se limita a mostrar as relações entre os objetos, mas fundamenta à luz da necessidade de explicação racional essas relações.

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Porque nem sempre o que buscamos é a verdade

Por , outubro 25, 2012 7:52 pm

06carpeEste texto procura esboçar respostas a duas perguntas colocadas por um colega*: 1) A pessoa que se diz Filósofo, mas usa a filosofia de forma desonesta e tendenciosa, pode ser considerado filósofo? 2) A pessoa que se diz Cientista, mas usa a ciência de forma desonesta e tendenciosa, pode ser considerado cientista?

1. A própria ideia de instrumentalização da filosofia já é a autonegação da sua própria atividade. Chamar para si o título de filósofo não significa nada. O filósofo não usa a filosofia, o filósofo simplesmente filosofa e põe a vida toda nisso! A questão é: o que é ser filósofo? Pra responder isso precisa saber o que é Filosofia.

E o que é Filosofia? Certamente a Filosofia não se reduz à busca da verdade, pois isso geraria grandes problemas, já que “verdade” (os sofistas já mostravam isso tranquilamente) é a propriedade fundamental das crenças, das doxai, isto é, das opiniões. Dizer que a filosofia ou a ciência buscam a verdade não é errado, porém não é filosoficamente – e nem cientificamente – rigoroso.

Filosofia é recuperar a experiência da realidade em detrimento das nossas ideologias, das nossas crenças. E isso não tem nada a ver especificamente com algum tipo de tese defendida pelo positivismo ou Círculo de Viena. No entanto, o procedimento da atividade filosófica, a princípio, emerge como genuína investigação da consistência das nossas próprias crenças.

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Quando a luz está além do físico-químico e o homem do humanismo

Por , agosto 27, 2012 10:22 pm

pianist460O cinema é uma arte extraordinária. Das poucas formas de arte sobrevivente do naufrágio da experiência artística depois da segunda metade do século XX. Das raríssimas modalidades artísticas, o cinema é aquela que ainda consegue transitar entre o puro entretenimento e o mais sofisticado da erudição hermética.

Um filme diverte e ensina, às vezes só ensina, às vezes só diverte e, muitas vezes, os dois. Os que só divertem interessam quando o olhar deseja fluir sem esforço. O filme acaba e ninguém fala mais nisso. Os bons filmes de diversão são aqueles que nunca nos importamos de ver de novo pra de novo deixar o olhar fluir sem esforço.

Os que só ensinam exigem atenção de toda a nossa existência, puxam a nossa vida para dentro do enredo como se ela propriamente estivesse em jogo em cada cena. Quando o filme termina permanecemos em silêncio num profundo diálogo com a nossa própria consciência.

Os filmes que divertem e ao mesmo tempo ensinam proporcionam uma boa oportunidade para uma conversa entre amigos. Talvez seja por essa razão que não gostamos de ir sozinhos ao cinema. Um filme para um olhar atento sempre provoca algum tipo de reflexão interessante.

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