A maravilha de um Mundo que não é o meu

Alice no País das Maravilhas Lewis CarrollNão pretendo entrar em detalhes técnicos sobre lógica, vou manter um nível razoável de reflexão, só pra dizer uma coisa estranha: os “acadêmicos” defensores da morte de bebês, notícia da última semana, estão certos. Calma, não fiquei maluco! Minha consciência leva outros dramas e pesos, mas em relação ao valor e ao direito à vida de um inocente, pelo menos em relação a isso, ainda dormirei tranquilo.

Existem coisas que não se discutem – e não é futebol, religião e política –, por exemplo, a veracidade de um axioma é, por definição, indiscutível. Premissas são pontos de apoio fundamentais a partir dos quais sistemas de mundos são construídos ou deduzidos. Se existe possibilidade de dúvida a respeito da validade de uma premissa, ora, é sinal de sua fragilidade. Nisso, pelo menos, o velho Descartes tinha alguma razão.

Analisar as “consequências lógicas” de uma premissa é um bom caminha pra testar a segurança da sua validade, às vezes não é fácil fundamentar um argumento, então, o jeito mais fácil, é esconder o mais importante e partir para as consequências.

Crenças são horizontes possíveis da expectativa de uma ação. Se acredito nisso, logo agirei de tal ou tal maneira. Exemplos são abundantes entre religião e a mais banal das crenças cotidianas. “Esperava que hoje à tarde estivesse sol para passear no parque com meus filhos, mas nuvens estão se formando e tudo indica que vai chover, logo eu preciso reprogramar o passeio da tarde”.

Crenças não são meras opiniões, mas elas determinam uma expectativa de ação, ou seja, minha crença orientará minhas ações em relação ao futuro. Se acredito no sol, acredito também que sairei à tarde, se percebo a possibilidade de chuva e acredito na chuva, terei de mudar os planos.

Na vida moral, ou seja, na vida de seres racionais que agem em vista de um bem, as crenças funcionam como axiomas, pelo menos num quadro limitado de possibilidades de ação que pode ir sendo investigado até uma crença, vamos chamar assim, mais fundamental. Parto da crença-X e construo o sistema-X. Mas minha crença-X dependente e pressupõe uma outra série de crenças-X cada vez mais decisivas para a construção de um sistema-X.

Da crença de que “hoje não vai fazer sol” deduzo todo um complexo sistema de ação futura a qual corresponde a um sistema complexo de uma visão mais decisiva de mundo, ainda que relativo, a partir do qual vou viver e nele agir, isto é, da crença “hoje  vai fazer sol” deduzo o meu “passeio com as crianças no parque hoje à tarde. O que me trará certa satisfação, pois verei meus filhos felizes etc.”. Há uma série de crenças relacionadas e pressupostas aqui “ver meus filhos felizes me trará satisfação”, “meus filhos ficam felizes ao passear no parque comigo”, “a felicidade dos meus filhos é a minha felicidade”, “eu me realizo como pai ao ver meus filhos realizados” etc. até encontrar pressupostos cada vez mais fundamentais, tal como, “ser feliz é cultivar a vida em família”, “o amor de um filho é irredutível”, “o amor é incondicional”, “minha realização está na realização do outro” etc.

E é à luz disso que penso ser possível encontrar uma boa possibilidade de relacionarmos lógica, epistemologia, metafísica e ética. A partir do fundamento da verdade das minhas crenças últimas consigo deduzir um sistema de mundo e, consequentemente, um horizonte consistente de ação coerente e justificado à luz de uma determinada crença.

Até agora não fiz e nem farei nenhuma questão de questionar a veracidade, ou consistência lógica, das crenças, apenas procurei estabelecer um panorama a partir do qual é possível analisar o caso dos “acadêmicos” defensores de “aborto para bebês”.

Há uma crença que diz assim: “o que determina a humanidade do homem é X”, outra que diz assim “a humanidade do homem é Y” e outra que diz “homem é Z”. A partir disso construímos sistemas complexos de mundo. A crença-X deduz o Sistema-X, a crença-Y o sistema Y e assim por diante.

A possibilidade, e com isso quero dizer, a legitimidade moral do aborto voluntário é uma ação executada dentro de um sistema de mundo complexo deduzida a partir de um quadro de crenças.  Se acredito em X, logo orientarei minhas ações para deduzir um complexo sistema de mundo-X.

A grande questão do aborto é, justamente, encontrar uma definição consistente a fim de justificar quando uma coisa se torna uma pessoa humana portadora de dignidade e, consequentemente, de todos os direitos relacionados à vida de um homem, tais como direito à vida, à propriedade, à liberdade etc. As perguntas subjacentes são  “o que é homem?”, “qual sua origem?”, “o que determina sua humanidade?”, “o que é uma pessoa?”.

Se respondo “o homem é X”, logo deduzo “um quadro de crenças-X” e, consequentemente, um “sistema-X”. Se respondo “O homem é Y” deduzo a “crença-Y” e, consequentemente, “sistema-Y”. No artigo “After-Birth Abortion: Why Should the Baby Live?” a dupla de acadêmicos não fez nada mais do que demonstrar, logicamente, um sistema de mundo-X a partir de um quadro de crenças-X no qual possibilitam e justificam ações-X.

A pergunta “por que um bebê deve viver?” é uma pergunta ética ligada, justamente, a uma séria complexa de pressupostos e crenças que fazem sentido num complexo sistema de mundo. No meu mundo de crenças tal pergunta não faz sentido algum. Seria como eu perguntar: “hoje à tarde fará sol, será que devo levar meus filhos pra Marte montados num elefante com asas de girassol?”.

Esse tipo de pergunta não é nada mais do que uma consequência lógica necessária de um mundo cujas crenças mais básicas fornecem a coerência dedutiva interna para esse tipo de pergunta fazer sentido. Os habitantes do “País das Maravilhas” vivem suas vidas e orientam suas ações em um mundo que pra eles tem completo sentido, não obstante o mundo deles ser completamente estranho pra mim e pra Alice, tal como é estranha uma pergunta como a desses “acadêmicos”.

Alguém que diz “a morte de um feto e de um recém nascido se justifica por… X” já está num mundo – apesar de pra mim não ter pé nem cabeça, ou seja, um mundo em que coelhos brancos falam e cartas de baralho cantam – cujas crenças básicas a respeito da humanidade do homem diz “a vida humana é condicionada por X”. Nossa principal diferença parte exatamente dessa premissa fundamental, pois no meu mundo bizarro “a vida humana não é condicionada por nada, não é determinada por ninguém”, logo seu valor é absoluto!

No entanto, há algo em comum entre os acadêmicos e eu: “não há diferença entre matar um bebê que acabou de nascer e praticar o aborto”, e a exigência de coerência lógica nos leva mais longe, pois, não há diferença nenhuma em matar uma criança, um jovem, um adulto e velho e praticar o aborto.

E não adianta vir com desculpinhas esfarrapadas e psicológicas do tipo “No aborto feito até o 3 mês de gestação o feto ainda não possui sistema nervoso, desenvolvimento cerebral e principalmente nenhuma atividade cerebral. Então não acredito que um feto até esse período possua vida. Então é um absurdo comparar as duas coisas. Sou a favor do aborto na gravidez em estagio inicial, mas completamente contra esse ato assassino.”, porque isso aqui é só um truque grotesco pra não ter de sujar as mãos com consequências logicamente deduzidas da premissa principal.

Pois esse tipo de comentário só demonstra a falta de coerência com as própria crenças. Ou seja, quem não é coerente com suas próprias crenças é um escravo da ignorância e quem consegue dar justificativas lógicas impecáveis responde com o rigor da moralidade por elas. Os acadêmicos são coerentes com o tipo de raciocínio, ou melhor, das crenças que sustentam esse tipo de comentário “sou a favor do aborto no estágio inicial”, “pois não acredito que um feto até esse período possua vida”, com eles demonstram que não há diferença lógica nenhuma, e nada justifica tal diferença!,  entre “aborto” e “assassinato bebês”. Absurdo é não ver a relação genuína entre as duas coisas!

A questão é: num mundo cuja premissa mais fundamental diz que “tudo é relativo”, a consequência moral mais coerente só pode ser “tudo é permitido”. Se a concepção de pessoa humana é relativa, ou seja, se posso condicionar a “humanidade do homem à A, B, C, D … X, Y e Z” segundo o que me é conveniente, logo qualquer coisa é permitida!

A dupla de acadêmicos, em última instância, demonstra que todos aqueles que defendem o aborto – podem até ter nomes diferentes e algumas divergências – habitam a mesma maravilha de mundo!

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  • http://flavors.me/charlesgomes Charles Fernando

    Não percebem que a dignidade do ser humano está vinculada com a sua natureza e não enquanto função. O Scott linkou esse artigo no facebook dele explicando isso.  http://patrickleebioethics.homestead.com/dignity–ratio_juris.pdf