Calligaris e o gnosticismo dos Coitados

Contado Calligaris tem boa intenção, mas cai na armadilha gnóstica dos incautos. Sua coluna traz um comentário sobre o Canibalista do Agreste que virou notícia no último mês. A verdade é que sua análise comete o equivoco positivista de associar religião, como um todo, a um delírio: “religião não presta, nós poucos iluminados queremos te lembrar disso”.

Dizem que religião, política e futebol não se discutem! O problema é que o brasileiro, em geral, discute tanto futebol e acha de discutir política e religião no mesmo nível da conversa de boteco animada pelas preferências e amores do seu time. Futebol é um jogo e toda discussão gira em torno da expectativas futuras e dos resultados dos jogos passados, entre um e outro fazemos apostas e tiramos um sarro dos amigos, e só!

Sobre política e religião a coisa já não é tão simples assim. E o problema é quando justamente pegamos um assunto extremamente complexo e o reduzimos a uma análise simples. O que é complexo demanda complexidade de consideração, extremo cuidado, atenção e aguda cautela. O risco é sempre localizar o primeiro bode-expiatório ao qual nossas constrangendoras inquietações se ajustem.

Basicamente o texto todo pode ser reduzido a dois pontos: i) associar religião, com uma função humana de responder perguntas cruciais sobre o sentido último da existência, a uma forma de delírio, até aqui nenhuma novidade e ii) mostrar que pessoas saudáveis não questionam muito sobre às razões últimas da nossa existência e, por isso, não deliram.

i) “O senso comum e a psicopatologia concordam: delírio é uma convicção inquestionável, incorrigível e muito pouco plausível. Além disso, um delírio não é apenas um exercício de fantasia, ele preenche a função (crucial) de dar sentido à existência do indivíduo que delira.”

ii) “São poucas as pessoas saudáveis a ponto de conseguir viver sem se atormentar com a necessidade de resolver, como se diz, o enigma da vida. Ou seja, são poucas as pessoas para quem a experiência concreta se justifica por si só, pela alegria de viver. A maioria precisa recorrer a crenças que digam por que e para o que estamos aqui.”

Calligaris tenta uma certa diplomacia ao dizer que a crença deixa de ser delirante quando é socializada. “Por mais que seja pouco plausível, uma crença cessa de ser delírio quando ela se socializa”. Qual a diferença entre um lunático canibal a serviço do mandamento do seu “deus” interior e um cristão católico membro de uma religião de 2 bilhões de adeptos com uma história de pelo menos 2000 mil anos?

Ora, a diferença, diz Calligaris, é que a primeira crença não pode ser socializada, logo é um delírio. Enquanto que o delírio coletivo normatizado socialmente é a gênese de uma religião. “Síntese paradoxal: uma religião individual é um delírio, e um delírio coletivo deixa de ser delírio e se torna uma religião.” Ou seja, tudo isso pra dizer: religião é um delírio, mas não é um delírio porque muita gente se entende. Quando todo mundo delíria ninguém delira, louco é o saudável.

A estratégia de Calligaris é reduzir a variedade complexa da experiência religiosa a uma explicação simples. Por trás do seu interesse moral em condenar o canibal não como um louco, mas como realmente responsável pelo seu canibalismo perverso, “cada um é responsável pela qualidade da religião que escolhe ou do delírio que ele elabora”. Esse tipo de frase é daquelas de um efeito retórico tremendo, dignas de um sofista, o jornalista moderno, mas na minúcia não diz muita coisa, ou seja, não explica nada.

Por que considero o texto do Calligaris ruim?

i) pressupõe um montão de coisas e esconde essas premissas. Claro, o objetivo do texto é apenas ensaístico, talvez até tenha bala na agulha pra resolver e justicar tais pressupostos, mas poderia mostrar que casos como de canibalismo em nome de “deus” não pode simplesmente ser associado, sem cautela, com religiões historicamente consagradas. O sagrado é tudo, menos ponto pacífico dentro de uma explicação psicopatológica.

ii) Pressupõe o que é ser uma pessoa saudável e mais ainda pressupõe a si mesmo como um ser saudável dentro, justamente, do sentido que deu a noção de saudável. Essa questão de “doente” x “saudável” é bem pobre e está longe de resolver uma história tão incomum.

iii) Quando ele diz que há “poucas pessoas saudáveis” que vivem “sem atormentar com a necessidade de resolver o enigma da vida”, no fundo ele esquece ou simplesmente ignora a fim de manter de pé sua tese, de que filósofos, grandes cientistas etc foram pessoas atormentadas com a necessidade de resolver esse tipo de inquietação, natural do ser humano, e que isso não era um delira só porque compartilham tais inquietações socialmente.

iv) “Experiência concreta se justifica por si só” – para o canibal era uma experiência concreta auto-justificada o que ele fazia, sobretudo, para “alegria de viver”. Esse tipo “estoicismo ingênuo” apresentado pelo Contardo Calligaris não resolve nada e só deixa bastante claro que ele não faz ideia do que esteja julgando.

No fundo, sua insistência em “há poucas pessoas” é uma tentativa de auto-justificativa de vestígio gnóstico, afinal, ele se auto-coloca entre as “poucas pessoas” capazes de viver um delírio despreocupado. Sua “Síntese paradoxal” é o seu auto-engano! Um espantalho pra justificar sua suposta “sanidade”.

Enfim, seu último parágrafo é digno de sua superficialidade: “Jorge não é um louco, mas um perverso, que manipulou duas abobadas e deixou alguns escritos, tudo com a intenção de urdir crimes sinistros e de ser reconhecido (e assim “desculpado”) como louco.” Afinal, o que é ser perverso? Seria cauteloso se desde o início ele optasse por tal caminho de reflexão, a perversidade é um escandalo e não se limita à denúncias tão lastimáveis! A perversão é um daqueles assuntos dignos de muita tinta. Mas Calliaris optou evidentemente pela crítica mais simples.

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