Quando o Nobel é ópio dos anti-religiosos

Gostaria de tecer um brevíssimo comentário a uma frase retórica que li esses dias no Facebook sobre religião e moralidade.

“Com ou sem religião, pessoas boas farão coisas boas e pessoas más farão coisas más. Porém para pessoas boas fazerem coisas más, é preciso religião.” Steven Weinberg (Nobel em Física)

Para uma pessoa iniciada nas primeiras lições de retórica, isso não passa de um truque bem baixo, pura retórica pra enganar otário! Imagine se fosse um religioso falando da ciência, mas um Nobel em Física pode falar qualquer bobagem sobre qualquer assunto que incautos se derretem todinho, principalmente os anti-religiosos! Frases feitas são, muitas vezes, como entorpecentes!

Não precisaremos entrar em detalhes em relação à estrutura lógica, para checar se o argumento é válido ou invalido formalmente, já que é bastante fácil mostrar que a frase é pura retórica. É como tentar refutar “É proibido proibir”, ou “Faça amor, não faça a guerra”. Impossível! Vou apenas demonstrar a malandragem.

O truque é simples: na primeira premissa – “Com ou sem religião, pessoas boas farão coisas boas e pessoas más farão coisas más”  – o autor apresenta uma concepção de ética filosófica conhecida basicamente com ética do dever, ou seja, o critério para avaliar o valor moral de uma ação humana está na intenção da ação, independente não apenas da religião, como sugeriu, mas também, e fundamentalmente, das consequências da ação; pessoas boas sempre agem segundo o dever à luz da intenção de agir bem, e pessoas más na intenção de agir mal.  É uma concepção filosófica bastante tradicional na filosofia, seus representantes mais emblemáticos são Sócrates e Kant.

Enfim, a prova de que ele está definindo uma ação boa segundo a intenção da ação é o verbo “fazer” no futuro do indicativo.

Agora vem o truque. Indiscriminadamente, sem avisar o leitor, afinal, é uma frase de efeito cuja função é anestésico cognitivo, na segunda premissa – “Porém para as pessoas boas fazerem coisas más, é preciso religião” – o Nobel em Física muda sua concepção de ética, isto é, da ética do dever defendida na primeira premissa, passa para uma concepção de ética conseqüencialista, isto é, o critério para julgar a qualidade do valor moral de uma ação não está mais na intenção do agir, mas no resultado da ação, ou seja, nas suas consequências.

O que antes dependia de uma concepção categórico, passa a ser nessa premissa considerado hipoteticamente. Na primeira premissa ele diz, categoricamente, ou seja, independente das circunstâncias, pessoas boas farão necessariamente coisas boas e pessoas más, coisas más. Já que o valor da ação nesse caso é a intenção. Mas caso, numa hipótese de uma pessoa boa, consequentemente, fazer algo mal, oras, é por causa da religião.

A prova da mudança da concepção está novamente indicada no verbo “fazer”: no primeiro caso foi usado no futuro do indicativo “farão”, agora, foi usado no infinitivo “fazerem”, retirando, assim, a marca da relação pessoal de quem intenciona agir bem ou mal para em seguida condicioná-la à religião. Como me respondeu um ateu que não se importa em ser enganado: “basta a frase fazer sentido pra mim, não pretendo discuti-la.”

A própria frase do Físico ganhador do prêmio Nobel em 1979, (um ano depois do meu nascimento) prova que sua tese está errada.

Ele, certamente, não deve ter religião e se considera uma pessoa boa. Pessoas boas farão o bem! Sua frase demonstra uma boa intenção, não obstante seja perversa na malandragem retórica induzindo seus admiradores ao erro, ou seja, é uma pessoa boa que fez o mal, mesmo sem intenção de fazê-lo e não precisou de religião pra isso.

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  • Tiago

    Olá Francisco …

    E não  são raros os ditos intelectuais que se balbuciam com tais informações. Recentemente, Zizek, ao  resenhar Coriolano (um bom filme dirigido por Fiennes), a certa altura diz o seguinte:

    “(…) Soldados não são maus per se – maus são os soldados COM POESIA, soldados mobilizados pela poesia nacional. Não existe limpeza étnica sem poesia – mas por quê? Porque vivemos em uma era que percebe a si própria como pós-ideológica. Como grandes causas públicas já não têm mais a força para mobilizar o povo para a violência de massa, faz-se necessária uma Causa sagrada mais ampla, uma causa que faz as insignificantes preocupações individuais com a matança parecerem triviais. O pertencimento religioso ou étnico encaixa-se perfeitamente nesse papel. É claro que há casos de ateus patológicos capazes de cometer assassinatos em massa só por prazer, mas eles são raras exceções: a maioria precisa se anestesiar contra a sensibilidade elementar ao sofrimento dos outros, e para isso faz-se necessária uma Causa sagrada. Os idealistas religiosos costumam afirmar que, verdadeira ou não, a religião leva pessoas geralmente ruins a fazerem coisas boas; pela experiência atual, deveríamos antes nos ater à afirmação de Steve Weinberg: enquanto, sem religião, pessoas boas estariam fazendo coisas boas e pessoas ruins, coisas ruins, somente a religião pode levar pessoas boas a fazerem coisas ruins. (…)”

    Pois é, um cara como Zizek não iria mesmo perder uma oportunidade … A resenha é fácil de encontrar na internet,  de tão tendenciosa mereceria um post inteiro para denunciar os inúmeros flagrantes …..

    Abs

    • http://www.franciscorazzo.com.br Francisco Razzo

      Tiago, tudo bem!?
      Bom, refutada a conclusão, refutada a tese! rsO Zizek é um sem-vergonha! Esse texto dele é um disparate de tolices. Mas farei um comentário em breve. AbraçosFrancisco

  • Lucas Lippi Tiossi

    Foi justamente por causa de usar uma frase contendo religião que ele fez o mal, alias se ele tivesse falando que a maldade é por causa de batatas e não da religião ninguém iria ligar. 
    Na verdade a religião foi uma artimanha para que sua frase criasse peso a ponto de ser considerada por pessoas que se “aceitam” dessa forma.
    A religião é sempre uma fonte de criticas para se gerar discórdia, uma vez de acordo com ela e você é um anjo, um vez contra ela e você morrera no inferno. 

    Concordo sim com que o Francisco diz: “…mas um Nobel em Física pode falar qualquer bobagem sobre qualquer assunto que incautos se derretem todinho…”, acho que é cada macaco no seu galho, não é por que ele é nobel que pode falar sobre a teoria da conspiração ou de assuntos que não domina. Porem se vamos discutir o conceito da frase dele, se é verdade ou retórica. Para isso vamos precisar entender o conceito de mal perante a origem sem pender para um dos lados, até por que  o problema em causa é o Mal, tanto faz se é causado pela igreja ou pelo Willian Boner.

     

  • http://twitter.com/kellervp keller

    É tudo uma sacanagem porque a religião também usa estas artimanhas. A maioria acredita na ciência, pois nao desconfiam dos “esquemas” que usam contra a religião, e quando a religião diz algo, boa parte desconfia, ja que a mesma tem antecedentes ruins (“Desonestos”), historicamente falando.

    -”Nos desonestos pode-se sempre confiar na desonestidade. Honestamente, os honestos é que deviam ser vigiados pois nunca se sabe quando farão alguma coisa realmente estúpida.”
    Nesse caso os ”Honestos” são os ciêntistas. 

    • http://www.facebook.com/profile.php?id=1488109464 Francisco Razzo

      Então, senhor Vinícius, não acho que seja tudo uma sacanagem. Há sacanagens porque há gente sacana… No caso acima só quis mostrar que mesmo um prêmio Nobel comete deslizes conceituais bem bobos e só pela razão de ser Nobel tudo mundo acha lindo.

      AbraçosFrancisco

  • Rosikleyde dos Santos

    É, mas o Dr. Steven Weinberg está absolutamente certo no que diz nessa frase. A fé em um deus cruel e psicótico faz homens e mulheres cruéis e psicóticos e Jesus, se existiu, foi um doente mental que sofreia não de uma, mas de algumas psicopatias muito acentuadas.

    • http://www.facebook.com/profile.php?id=1488109464 Francisco Razzo

      Rosikleyde, aqui não tem espaço pra comentários estúpidos tais como o seu. Eu fiz minha parte em refutar a lorota do Weinberg, caso não tenha percebido, leia novamente e tente apresentar uma contra-refutação, vomitar tolices aqui não.

  • 1Kosmos22

    Francisco, você tem alguma critica a ética do dever? existe algum tipo de ética que se baseia numa mistura da ética consequencialista e ética do dever?

  • Antonio Carlos

    A frase destina-se a resumir uma análise de estudos antropológicos de quando os fundamentos religiosos são usados de forma cruel para causar dominação ou restrições a vida e a liberdade dos indivíduos em uma sociedade, seja qual for a doutrina, não necessariamente a cristã.

    Sendo os preceitos religiosos usados como argumento para inocentar os violadores de culpa pessoal e os eximirem de suas responsabilidades pessoais ao mal cometido por estarem tão somente seguindo a vontade de seus deuses.

    Sua análise também comete alguns erros básicos: o primeiro certamente ao deixar de citar este contexto em que foi dita, outra quando diz não entrar em detalhes da estrutura lógica, mas o fez. na sintaxe e também o tempo verbal da segunda frase é ” fazerem ” no infinitivo impessoal ( reforça a idéia do ato praticado por qualquer um ) e não o conjuntivo ” fizeram” ( que representa a possibilidade )

    • http://www.franciscorazzo.com/ francisco razzo

      caríssimo, obrigado pelo teu comentário.

      1. De fato estava realmente cometei este erro gramatical, troquei o “fazerem” por “fizerem”. Vou arrumar isso no texto e te dar os créditos. Este é um erro, você mencionou “alguns”.

      Agora vejamos se tua crítica toda procede e se este meu erro frustra a minha análise.

      2. A frase diz: “Com ou sem religião, pessoas boas farão coisas boas e pessoas más farão coisas más. Porém para pessoas boas fazerem coisas más, é preciso religião.”

      a) Você diz que cometi um erro por retirar a frase do contexto. Primeiro, não retirei de contexto, na verdade eu peguei a frase – e explico isso no início – no contexto de sua finalidade, isto é, ateus usam essa frase para atacar a religião e usam-na exatamente fora do contexto do autor. Se usam fora do contexto com uma finalidade o erro não é meu, mas deles e meu objetivo foi mostrar que independente disso a frase tem um problema de estrutura.

      b) Qual minha tese sobre a frase? O autor está jogando com duas concepções de moralidade. Ora, por que você não apontou isso como um erro meu sendo que este é o ponto principal do meu argumento contra a frase?

      A) na primeira premissa – “Com ou sem religião, pessoas boas farão coisas boas e pessoas más farão coisas más” – o autor apresenta uma concepção de ética filosófica conhecida basicamente com ética do dever, ou seja, o critério para avaliar o valor moral de uma ação humana está na intenção da ação, independente não apenas da religião, como sugeriu, mas também, e fundamentalmente, das consequências da ação; pessoas boas sempre agem segundo o dever à luz da intenção de agir bem, e pessoas más na intenção de agir mal. É uma concepção filosófica bastante tradicional na filosofia, seus representantes mais emblemáticos são Sócrates e Kant.”

      B) na segunda premissa – “Porém para as pessoas boas fazerem coisas más, é preciso religião” – o Nobel em Física muda sua concepção de ética, isto é, da ética do dever defendida na primeira premissa, passa para uma concepção de ética conseqüencialista , isto é, o critério para julgar a qualidade do valor moral de uma ação não está mais na intenção do agir, mas no resultado da ação, ou seja, nas suas consequências.

      3) “Com ou sem religião, pessoas boas farão coisas boas e pessoas más farão coisas más. Porém para pessoas boas fazerem coisas más, é preciso religião.”

      P1. Com ou sem religião, pessoas boas farão coisas boas e pessoas más farão coisas más.

      P2. Para pessoas boas fazerem coisas más, é preciso religião.

      P1. pode ser traduzida por: “A Religião não condiciona as ações das pessoas boas e não condiciona as ações das pessoas más”, já que “pessoas boas farão coisas boas e pessoas más farão coisas más” independente da religião.

      P1′. Também expressa a ideia de que “pessoas boas e más não dependem de religião para serem boas e más, pois farão” coisas boas e más uma vez que já sãoboas e más.

      P2. pode ser traduzida por “pelo menos em uma condição a religião condiciona as ações, a religião condiciona as ações das pessoas boas”, uma vez que “para pessoas boas fazerem coisas más, é preciso religião.”.

      P2′. Também expressa a ideia de que “pessoas boas dependem de religião não para serem más, porém para fazerem coisas más”.

      P1′ ou P2′. Se não houver mudança no conceito de ética, tal como apontei acima, então estamos diante de duas premissas contraditórias.

      Pois: ou “pessoas boas e más não dependem de religião para serem boas e más, pois farão” coisas boas e más uma vez que já sãoboas e más, ou “pessoas boas dependem de religião não para serem más, porém para fazerem coisas más”.

      Ficaria grato de explicar-me onde errei também.
      Francisco

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