Deus Artista e não Arquiteto
Conheço muitos cristãos dizendo, equivocadamente, que Teoria da Evolução e a Teoria do Big Bang “são incompatíveis como a religião e a fé”, e que tudo isso não passa de “invenções de cientistas ateus” ou qualquer outro modo de querer por em xeque a crença em Deus.
Explico isso da seguinte forma: tudo depende da formação desses religiosos! Os religiosos que pensam assim são verdadeiros dogmáticos, no sentido pobre do termo. Tais como avestruz, enfiam a cabeça no buraco e não pensam mais em nada a não ser, de modo egoísta e mesquinho, garantir seu lote no céu.
Isso não tem nada a ver com a genuína vida religiosa! Na verdade só confundem e alimentam a fogueira da discórdia. Dando razão, evidentemente, à armagura dos ateus, que não medem esforços para tratar os cristãos com chacota.
É preciso fazer uma distinção fundamental entre “Doutrina Religiosa” e “o que a maioria dos religiosos pensam sobre suas doutrinas e suas práticas de fé”. Nesse sentido, há duas noções de dogmas. Um dogmatismo psicologicamente autoritário e um Dogma de Fé. É preciso pensar nessa distinção, pois há muita gente tentando colocar pêlo em ovo!
Toda religião cristã é fundamentada numa série muito específica de Dogmas, não há como sair disso. E a partir desse corpo de Dogmas se estabelece um modo específico de vida e prática religiosa. Mas o problema não é esse. O problema é achar que tudo no âmbito da fé pessoal em Deus é um dogma! “Tenho fé, logo isso é assim e não pode e não pretendo e nem quero que seja de outro jeito”.
Fé e Razão, Ciência e Religião, são duas maneiras distintas e complementares de nós compreendermos a nós mesmos e o todo da realidade. Tangenciam-se em alguns pontos muito específicos, mas em geral é bom mesmo que fiquem separadas. Admira-me muito religiosos ainda evocando Deus para participar ou dar explicação para uma questão científica. É melhor deixar a ciência para os relojoeiros, Deus não tem nada a ver com isso!
A Religião não pode querer e muito menos pretender ser uma teoria a respeito de eventos físicos e naturais. Usar a religião para explicar “as coisas tais como elas são e se relacionam umas com as outras no âmbito de suas determinações” é tolice. Religião está mais para explicar “o por quê das coisas no nível enigmático da sua relação com o todo, seu princípio e fim último”.
Enquanto cabe sim a Ciência dar razões de como o mundo é no nível de suas particularidades e determinações, do seu modo de ser, não parece fazer muito sentido para a Ciência se perguntar pelo todo enigmático da realidade e sua razão de ser.
Há outros níveis de compreensão do mundo, o estético, o ético, o existencial, o lógico etc. A religião está intimamente muito mais ligada à experiência estética do que à experiência, por exemplo, lógica. E qualquer tentativa de justificar a partir da lógica a experiência estética é matar na raiz o sentido íntimo dessa experiência.
O cristianismo não é uma explicação científica do mundo e nem pode ser, mas “funciona” muito mais como uma explicação a respeito da morte, no âmbito da questão mesmo filosófica, da experiência existencial da finitude, do drama humano inserido na opressora angústia do significado. No limite, Fé só pode mesmo ser uma questão de livre escolha e gosto, pois está no nível de um drama e não na funcionalidade de uma engenhoca mecânica. Deus está muito mais para um artista do que um relojoeiro. Muito mais um maestro do que um arquiteto!
Um entulho de discussões e mal-entendidos entre teístas e ateístas sobre provas da existência de Deus e blá-blá-blá poderiam ser mandadas para o lixo se tal distinção começasse ser levada a sério. A Natureza, para um crente, está muito mais para uma sinfonia, cujo regente é Deus e a música seu Espírito, do que para a construção mecânica de um arquiteto ou matemático vaidoso.
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Antonio Afonso
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"Para conseguir sua maturidade o homem necessita de um certo equilíbrio entre estas três coisas: talento, educação e experiência." (De civ Dei 11,25)
