A vergonha da culpa

William_Blake_-_NebukadnezarA cultura Europeia criou algumas situações psicologicamente insustentáveis para si mesma:

1- terroristas fortemente armados, treinados e com as mais boas das intenções (servir seu próprio Deus e propósitos, afinal, quem não deseja um cantinho no Céu) matam pessoas, do modo mais brutal, covarde e indigno de matar – se é que faz sentido falar em algum jeito digno de matar alguém. E a imprensa, que de algum modo reflete a opinião pública geral, dá a entender que devemos nos desculpar num vertiginoso e tirânico ato de penitência por ter matado, numa operação policial, os terroristas.

Vi um analista político declarar que “os terroristas não deveriam ser mortos, pois toda vida tem dignidade”. Concordo com ele, PORÉM – e aqui a designativa de oposição não é absurda, pois não revela uma justificativa para execução de pessoas inocentes – ele esquece de um detalhe: os critérios de uma “guerra justa” foram suspensos quando a ordem de execução de civis inocentes – mataram até o porteiro do prédio da revista – foi dada pelos líderes religiosos aos terroristas.

O fato é que os terroristas islâmicos assumiram as piores consequências quando selaram compromissos com seus líderes de forma irrestrita. Não há o que se desculpar.

2- Outra situação insustentável da Europa, além da tirânica necessidade de penitência, é o excesso de preocupação com a insurgência de uma possível extrema-direita nacionalista, xenofóbica, antissemita e tudo de ruim e pior que nem o inferno deseja como inquilino.

O que acontece pode ser resumido no seguinte: em situações como essas – isto é, situações nebulosas, difusas, confusas, tomadas pelo pânico de ataques no seio da própria cultural, em última instância, a situação de uma Europa, como disse Walter Laqueur, que vive seus “últimos dias” e experimenta uma cultura sitiada pelo desejo de ser pluralista, multicultural, democrática e livre de ameaças externas –, torna-se tentador o forte desejo de unidade cultural, vivido como a nostalgia de um réquiem.

A extrema-direita (assim como a extrema-esquerda e qualquer outro tipo de extremismo) não é a ameaça, mas a reação a uma ameaça. Não é a causa, mas a consequência de um estado de coisas. Um diagnóstico cultural deveria compreender melhor as causas de possíveis reações dessa natureza. Criar pânico a respeito das consequências não ajuda em nada, pois são sintomas. O problema da Europa não está no sintoma.

Penso nas possíveis causas: a tentativa de fundamentar seus valores mais caros, compreendidos como universais (lembram da celebrada Declaração Universal dos Direitos do Homem?), sem um adequado fundamento que seja realmente universal. O secularismo não constituí um fundamento universal para valores universais.

A experiência secular e concreta dos Europeus – secularismo como única … Continue Reading ››

Ódio intuitivo

st-agatha-martyrdomQuando eu vejo ativistas do grupo Femen invadindo catedrais com senhoras rezando o terço ou feministas enfiando a escultura de uma santa no rabo durante uma missa, eu logo penso: “queria ver fazerem isso numa mesquita”.

É um pensamento tentador, quase intuitivo, desejar o pior. Pois eu sei que numa mesquita a reação do “mundo árabe” seria bem diferente. É como se eu desejasse, lá no fundo do meu coração, que algo de muito ruim acontecesse com essas meninas.

Talvez por incompetência e covardia minha eu não reajo com violência -- não sei, o coração esconde coisas terríveis. Pensamento tentador esse de desejar aos meus inimigos o pior dos infernos possível.

Vejo muita gente dizendo por aí, em caixa-alta, “NADA JUSTIFICA O ATENTADO, MAS...”. Ora, esse MAS (designativa de oposição) depõe contra quem diz achar o atentado INJUSTIFICÁVEL. Se na ideia de injustificável está contido o que não se justifica em hipótese alguma, então não tem “mas” digno de sustentar qualquer justificativa. Isso tudo caracteriza uma tentativa muito superficial -- movida muito mais pelo ímpeto de paixões que ofuscam o juízo -- de COMPREENSÃO.

A relação entre compreensão, juízo e justificação é mais sútil do que a nossa capacidade de fantasiar. No entanto, o coração nessa hora não compreende, o juízo tem um “time” próprio. Nesse caso, então, o uso da designativa de oposição “mas” só revela o que nosso coração lá não tão no fundo desejava: “bem feito para esses cartunistas, foram mexer com quem não devia. Foram apagar o fogo com gasolina. Bem feito!”. Talvez...

De qualquer modo, se eu tento tornar um pouco mais “aceitável”, isto é, menos absurda, a morte brutal, sem julgamento, de doze pessoas – talvez não tão inocentes assim (todos somos pecadores) --, então esse excessivo uso do “mas” revela pelos menos duas coisas: “eu desejo o mesmo para os meus inimigos”, MAS “sou um covarde que não tem coragem de puxar o gatilho”, e concluí aliviado, MAS com vergonha de olhar no espelho, “parabéns pela coragem desses religiosos que elevaram a sua fé em Alá até suas últimas consequências”.

Depois de meditar sobre o pior para os meus inimigos, em silêncio contrito, eu resisto à tentação desses tormentos do meu coração e procuro a face do Nosso Senhor. O ódio passa. A liberdade, a dignidade da pessoa e o direito à vida voltam a escandalizar essa minha tentativa estúpida de explicar coisas injustificáveis.

Ocidente como algoz da humanidade

33isaac2O Ocidente secular se faz de culpado: “nossa cultura é intolerante e opressora. Logo, o ódio e o ataque deles -- isto é, de todos os que já prejudicamos -- é compreensível e, acima de tudo, justificável." Isto caracteriza o grau máximo de alívio que uma consciência tomada pela “tirania da penitência” pode chegar (expressão de Pascal Bruckner, filósofo francês) em relação a si mesma: experienciar a deflagração de barbárie no seio da própria civilização e ainda conseguir culpar a si mesmo.

O “choque (clash) de civilizações”, formulado pelo cientista político Samuel P. Huntington, compreendia que as identidades culturais – incluem aí sobretudo as religiões – serão as principais fontes de conflito no mundo. Diz Huntington: “a fonte fundamental de conflitos neste mundo novo não será principalmente ideológica ou econômica. As grandes divisões entre a humanidade e a fonte dominante de conflitos será cultural[...]. O choque de civilizações dominará a política global. As falhas geológicas entre civilizações serão as frentes de combate do futuro”.

Isso significa o seguinte: os conflitos não são dados por lutas de classes, ou seja, a premissa básica da dinâmica da história não é material, mas simbólica. O Ocidente secularizado não resistirá à força dessa dinâmica, pois esvaziou os seus símbolos. A razão disse não é tão simples: os valores que sustentam a identidade de uma civilização derivam de uma experiência profunda de participação no reino dos fins. Esses valores são fundamentados, portanto, na própria consciência de experiência histórica, o que chamamos, em geral, de “tradição”, como sagrada. Qual, afinal, é o significado de sermos “ocidentais”?

Uma das marcas do ocidental contemporâneo é o secularismo: esvaziamento radical de todos os símbolos religiosos, isto é, esvaziamento da própria experiência de narrativa da nossa história como sagrada. Uma cultura secular não consegue sustentar seus valores mais caros: liberdade, irredutibilidade da dignidade da pessoa, o direito à vida, justiça etc, já que todos eles foram reduzidos ao palavrório vazio do reino das realizações imediatas.

A noção de “tolerância”, cara à nossa cultura secular moderna, não traz em si a solução para um paradoxo simples que ela mesmo gera: “mas e se o outro não aceitar a tolerância como premissa mínima ao fundamento de uma ‘nova ordem civilizatória’?” O atual atentado à sede da Charlie Hebdo é só mais uma prova de que o Ocidente definha por ter “optado” em reconhecer a sua própria tradição como o grande algoz da humanidade. O resultado disso não será nossa a redenção, mas o nosso ocaso.  

A alma do fantoche de palha

not-to-be-reproduced-1937(1)Devo alertar a juventude de que quando lhe falam todas essas coisas como de descobertas de nosso tempo, estão zombando dela: essas novidades são tão velhas quanto deploráveis quimeras.

François-René de Chateaubriand, Ensaios sobre as revoluções, 1797.

A atual ascensão daquilo que se poderia chamar de uma espécie aparentemente contraditória de “nova mentalidade conservadora” brasileira traz um fato curioso e, ao mesmo tempo, flagrante: se de fato existiu doutrinação ideológica, então os “novos conservadores” são frutos de anos de inculturação promovida pela mentalidade progressista de esquerda. Oferecendo-nos, assim, uma ideia razoavelmente clara do esgotamento do projeto revolucionário que visava a realização do novo homem e do bem utópico.

Deste modo, os “novos conservadores” são os próprios “filhos da revolução” cultural. Pois são os herdeiros diretos da precária e distorcida política pedagógica na qual o país foi construído e submetido ao longo de décadas. Neste sentido, não há nessa nova geração de conservadores nada do refinamento intelectual e moral típicos da verídica tradição conservadora que eles alegam defender e herdar. Nenhum sinal da prudente aptidão que deve servir de exigência mínima a conduzir uma reacionária resistência.

Fazer esta exigência poderá até soar como pedantismo. Entretanto, a exigência intelectual e moral para ir a público defender uma genuína tradição conservadora não condiz com a formação dessa nova geração de conservadores que, em geral, tem começado atuar no debate público. É relativamente fácil, a partir do advento da internet, tomar consciência da existência de uma tradição intelectual e moral conservadora a fim de constatar que, no Brasil -- de fato --, carecemos dessa formação.

Só que a experiência do tempo do novo afã conservador não coincide com a experiência do tempo de formação intelectual e de preparação moral necessárias para fundamentar uma consistente mentalidade conservadora de uma nação, seja no nível estético, literário, acadêmico, político e cultural. Ora, se o Brasil sofreu um apagão cultural de intelectuais conservadores em particular e da alta cultura em geral ao longo das últimas gerações, então não será do dia para noite que se testemunhará o renascimento dessa tradição. A vida intelectual é assustadoramente custosa e exageradamente penosa.

As novas e eficientes possibilidades de comunicação proporcionadas pelas tecnologias de internet não acompanham a demanda da preparação do intelecto. É até muito bacana e empolgante ir a um “hangout”, ao vivo, desabafar sobre os intrincados problemas de filosofia política e da “guerra” contra a civilização ocidental. Eu diria até corajoso e muito nobre botar a cara à tapa e falar com orgulho sobre o significado de ser um conservador em um país carente de produção intelectual conservadora.

Porém não se deve confundir o ímpeto da tomada de consciência com o próprioconteúdo de uma consciência conservadora. E os flagrantes vícios de linguagem e o maneirismo da postura moral depõem contra essa nova geração de conservadores que, pelo menos em … Continue Reading ››

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Os Furos de Olavo

the-gray-forest-1927Há quem me julgue rancoroso, ressentido, invejoso. Não se trata disso, em absoluto. Trata-se apenas de oferecer, a quem se interesse, uma perspectiva um pouco diferente da obra e da atividade pedagógica de Olavo de Carvalho. Ele sempre se notabilizou por ser um “temível polemista”. Um homem corajoso, à margem do sistema, da academia, da crítica. Ele se orgulha disso. E por isso mesmo me soa tão estranho que, quando se trata de avaliar seus textos ou sua atividade pública, os alunos, leitores ou críticos tendem a se comportar de forma tão passiva. Vejam só o que ele escreveu desta vez, e vejam se não há qualquer coisa estranha aí:

“Confesso e admito que, excluídos dois ou três livros recentes, minhas opiniões sobre a escola analítica são baseadas em impressões de leitura de quarenta anos atrás. Mas quarenta anos atrás essa escola já tinha setenta anos de existência e, se levou mais tempo do que isso para melhorar, a melhora não atenua em nada o vexame anterior”.

Algumas coisas me chamaram a atenção.

A primeira delas é a seguinte: para um filósofo que incentiva seus alunos a uma espécie de “voto de abstinência em matéria de opinião” – ou seja, antes de estudarem com afinco, meditarem, metabolizarem as idéias, os leitores e alunos não devem formar opiniões contundentes sobre assuntos filosóficos –, ele demonstra pouco apreço pelo próprio método. Como se vê, Olavo prega aquilo que ele mesmo, aparentemente, nem sempre praticou, já que formou sua opinião sobre a Escola Analítica baseado em “impressões de leitura de quarenta anos atrás”. Isso não se parece em nada com a imagem de pesquisador incansável e criterioso que ele tanto quer passar como modelo.

Em seguida, note-se que, segundo Olavo de Carvalho em outro post, será preciso um exército de alunos diligentes, ao longo de aproximados quarenta anos, só para que seja feito o levantamento ‘material’ de sua vastíssima obra (ao dizer isso, ele deixa subentendido que será preciso o dobro de tempo para que se compreenda ‘qualitativamente’ seus feitos). Mas o engraçado é que ele também diz que, quando tomou conhecimento da Escola Analítica, esta já existia há setenta anos. Isso quer dizer que setenta anos naquele tempo, mais os quarenta subsequentes, podem ser compreendidos com apelas algumas “impressões de leitura” e a “leitura de dois ou três livros mais recentes”?

Aliás, ele gosta desses números exagerados. Em alguns artigos disse que a hegemonia esquerdista não é obra de improviso, mas tarefa de trinta anos, que levaria outros trinta para ser neutralizada. Hoje sabemos que será preciso quarenta anos para sequer recolher e organizar os escritos do Olavo, sempre “espalhados em apostilas sem revisão do autor, e gravações”. Convenhamos: essa é uma forma … Continue Reading ››

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