Somos todos Juízes

INGSOC_by_ghigo1972A gremista Patrícia Moreira Silva foi maculada pelos moralistas com a marca de Caim. E, para compreender um pouco do que se passa nesse drama kafkiano, é preciso, antes de tudo, suspender as típicas chaves de interpretação cultural “esquerda” ou “direita”, e “conservadores” ou “progressistas”. Nesse caso concreto, as nossas fantasias ideológicas já não funcionam como critério de julgamento.

Quando deparamo-nos com a notícia de que “torcedora do Grêmio xinga goleiro de macaco”, nossa primeira atitude mental implica atacar esquemas ideológicos contrários ao nosso. “Eu, de esquerda, jamais cometeria tal atitude preconceituosa, sou imune a esse tipo de discriminação. Tudo o que há de ruim, bárbaro e torpe no mundo não passa de um ‘câncer’: a direita.”

Quando deparamo-nos com a notícia de que “casa da torcedora gremista que xingou Aranha é incendiada em Porto Alegre”, nossa primeira atitude mental implica atacar esquemas ideológicos contrários ao nosso. “Eu, de direita, jamais cometeria tal barbárie, pois acredito piamente na força da justiça. Tudo o que há de ruim, bárbaro e torpe no mundo não passa de um ‘câncer’: a esquerda.”

Torcedora do Grêmio xinga goleiro de macaco; logo, “o Brasil é racista”. Casa da torcedora do Grêmio é incendiada; logo, “a esquerda quer implementar uma ditadura do politicamente correto”.

É relativamente fácil se esquivar da responsabilidade de certos juízos atribuindo a culpa ao “outro”. Munidos dessas fórmulas simples, muitos moralistas – de direita ou de esquerda – buscam resolver problemas complexos com juízos edificantes. O moralista constrói o mundo perfeito à sua própria imagem e semelhança e busca colocá-lo em prática. A imaginação tem o poder de reduzir a complexidade dos fatos a esquemas pretensiosamente unívocos: “a culpa sempre é do outro”. “Joga pedra na Geni!” – os moralistas são os que disputam para saber quem atirou a primeira pedra.

De todo modo, o primeiro grande responsável pelo lamentável episódio não é outro senão nossos construtores de fantasias na imprensa (já chamada de “quarto poder”). Se o poder do imaginário corrompe, então o poder de construir imaginários inconsequentes corrompe inconsequentemente. Há formadores de opinião que são peritos em formar também o tribunal e os juízes.

O efeito no imaginário produzido pela repetição contínua da imagem em slow motion da garota gritando “macaco” não tem limites, e as redes sociais o replicaram ad nauseam. Embora outras pessoas, inclusive negras, tivessem chamado o goleiro de “macaco”, a imagem fixada no imaginário dos moralistas será sempre a dessa garota. Os editores do vídeo não fizeram uma “denúncia”, eles produziram um bode expiatório. Patrícia Moreira já não é mais “alguém” que responderá diante da balança da Justiça. Ela foi despersonalizada pela imaginação moralista.

Quem tem de avaliar se houve crime não pode se submeter ao fluxo dessa imaginação moralista. Ninguém pode ser acusado, julgado e penalizado a partir de uma mera “impressão” e “senso de justiça”. A Justiça não pode cair na tentação dos moralistas com essas ilusórias acusações. E a vagueza desse tipo de julgamento nunca resolverá o problema efetivo do racismo no Brasil; pelo contrário, só o intensifica.

Publicado originalmente no Gazeta do Povo

Ideias e consequências

a pedra da loucura

1. Olavo de Carvalho afirmou que o que eu escrevi no post anterior “não modifica em nada” o que ele disse sobre Peirce em seu artigo para Imbecil Coletivo. Uma vez que, segundo ele, “a filosofia de Peirce continua conhecida, em público, sobretudo pela tese que ele critica”.

Primeiro, quando você critica um filósofo por aquilo que o "público geral conhece" -- e não acompanhado cuidadosamente o próprio desenvolvimento da filosofia através dos textos e do debate em que ele está inserido e, de fato, se desenvolveu ao longo da história das ideias --, então você não está "criticando o filósofo", você está criticando a vulgarização daquela filosofia.

E, mais, o que é pior, torna-se, inclusive, um dos responsáveis por essa vulgarização diante do público geral. Portanto, bate num espantalho e "vende" aquela filosofia como se fosse coisa de gente “retardada”. As centenas dos leitores incautos replicam essa imagem distorcida aos quatro cantos e, ao invés de elevar o nível do debate filosófico – como presunçosamente pretendido –, a suposta crítica torna-se propagação de palpitaria e baixaria.

O próprio Olavo de Carvalho, numa entrevista recente, comentou a dinâmica desse processo acerca de sua própria obra:

“Tenho uns trinta e seis mil “seguidores” no Facebook (que só são seguidores num sentido ótico da palavra), uns cem mil leitores espalhados pelo Brasil e talvez uns duzentos mil ouvintes e espectadores no Youtube. Mas, de todos esses, só uns dois mil – menos de um por cento – são meus alunos no Seminário de Filosofia, e estes, a pedido meu, evitam participar de discussões na internet, só o fazendo quando é no quadro de alguma atividade profissional ou intelectual mais sistemática [...] Por isso, o que acaba aparecendo superficialmente como “discussão” das minhas ideias é justamente o que vem do público mais geral, que não tem comigo nenhuma relação de aprendizado e que me chama de “professor” apenas por gentileza. Não tem sentido esperar que esse público tenha uma compreensão das minhas ideias no nível que a têm os meus alunos. Deles vêm, com frequência, perguntas mal formuladas e opiniões toscas, que refletem um esforço de aprendizado sincero mas ainda muito incipiente. Alguns observadores maliciosos ou burros, no entanto, nada sabendo nem querendo saber dos meus cursos ou dos meus alunos, fazem questão de tomar justamente esse público geral como amostra típica dos resultados do meu ensinamento. É uma deformação caricatural monstruosa. Todo escritor ou filósofo tem um público geral que o aprecia sem compreendê-lo muito, mas tem também o direito de ser julgado pelos seus escritos e pelo seu ensinamento direto e não pela resposta incontrolável que obtém de um público difuso”  (destaques são meus).

Eu não estou defendendo Kant ou Peirce das críticas de Olavo; eu estou defendendo a interpretação cautelosa e o respeito à própria divulgação da filosofia, que é a mesma que Olavo exige em relação à sua obra. E não importa se a gente analisa um filósofo num periódico acadêmico ou divulga suas ideias na feira, a única coisa que importa é a responsabilidade de divulgar o que ele escreveu com precisão.

Afinal,  quando se trata da obra do próprio Olavo, então tem de ler todos os seus livros, frequentar as suas aulas etc. Mas quando se trata dos desafetos ou de um antípoda filosófico, então, beleza, está liberado!

2. Sobre a crítica de Olavo à tese de Peirce. Ele afirma: “Peirce diz que o único significado de uma idéia reside nas conseqüências práticas que dela se possa inferir”. Como vimos no post anterior, essa tese não é o miolo da sua filosofia.

Continua: “Ironicamente, a tese é inaplicável na prática”, ou seja, insinuando uma suposta contradição no “miolo da filosofia” de Peirce, o que, consequentemente, demoliria o todo de sua filosofia.

Sendo assim, vamos checar, de perto, as razões dessa denúncia feita por Olavo.

Segundo Olavo de Carvalho, o pragmatismo é inaplicável na prática, “porque existe uma diferença significativa e não raro uma separação abissal” entre duas concepções de “consequências práticas”.  Essa distinção é  uma interpretação de responsabilidade de Olavo que não se apoia nos textos do próprio Peirce. Se Olavo tivesse lido atentamente Peirce, saberia que a preocupação de toda sua filosofia consiste na relação entre “conceitos gerais” e a “determinação prática”. A relação entre “lógica” e “metafísica” é bem mais sutil no âmbito do “realismo objetivo” peirciano.

A crítica de Olavo ao “miolo da filosofia de Peirce” parte da distinção entre a) as “consequências práticas que se pode inferir mediante conjectura lógica” e b) as “as conseqüências práticas que ela de fato vem a desencadear no decorrer do tempo”. O problema é Olavo não conhecer a tese de Peirce da relação entre as ideias gerais e as determinações reais – expressão fundamental da sua leitura dos realistas escolásticos (sobretudo o princípio da individuação de Duns Scoto – e o conceito de haecceitas).

Segundo a interpretação de Olavo, Peirce “teria dito” que o significado está na “soma” das consequências! E, a partir disso, Olavo conclui que “a soma desses dois tipos de consequências dá ‘zero’”. Obrigação de perguntar: em que texto Peirce diz que o “significado está na soma desses dois tipos de consequências (a e b) distinguidas pelo próprio Olavo?  Olavo faz crer que em Peirce pensa segunda a sua própria interpretação sem dar uma prova textual disso.

O que Peirce diz exatamente no seu famoso texto de 1878 é isso aqui: “Para desenvolver o seu significado, temos, portanto, de simplesmente determinar quais os hábitos que produz, pois que o que uma coisa significa são simplesmente os hábitos que ela encerra” (podem conferir aqui).

Em outro texto, O que é pragmatismo,  Peirce escreve o seguinte: “Arquitetou a … Continue Reading ››

Elementos DA MESMA DESCULPA

numeros-e-constelacoes-em-amor-com-uma-mulher-joan-miroEscrevi dois posts sobre uma parte da crítica do filósofo brasileiro Olavo de Carvalho acerca de outros dois grandes filósofos: Kant e Peirce. São relativamente famosas as observações críticas de Olavo a esses dois ícones da história da filosofia moderna e contemporânea.

1. Em Nota sobre Charles S. Peirce, publicado no livro Imbecil Coletivo, Olavo afirma: “E Charles Sanders Peirce gerou William James, que gerou John Dewey, que gerou Richard Rorty, que, desembarcando no Brasil, gerou entre os nativos o maior frisson e confusão mental. Remontemos às origens” (p. 68).

Todavia, sem prejuízos, essa sentença poderia ser escrita exatamente assim: “E Charles Sanders Peirce gerou William James, que, de um lado, ajudou a gerar Edmund Husserl e Ludwig Wittgenstein, e, do outro, gerou Henry Bergson e Eric Voegelin, que, quando publicado no Brasil, gerou entre os nativos da alta cultura o maior frisson e confusão mental.” Ou seja, eis o problema de remontar, por galhos tortos, às origens".

A primeira passagem da crítica já denuncia a falta de contato com a obra de Peirce e o descuido da análise crítica de Olavo. Afirma o filósofo brasileiro: “Peirce diz que o único significado de uma ideia reside nas consequências práticas que dela se possa inferir. Esta tese é o miolo da sua filosofia e o que origina sua denominação de pragmatismo: pragma, em grego, são os assuntos da vida prática” (p. 68).

Uma vez que basta comparar a sentença formulada por Olavo com a sentença original da “máxima pragmática” escrita por Peirce em seu famoso ensaio e 1878, How To Make Our Ideas Clear: “Considere quais efeitos, que possam concebivelmente ter consequências práticas, concebemos que o objeto de nossa concepção tenha. Então, nossa concepção desses efeitos é o todo de nossa concepção do objeto” (Consider what effects, that might conceivably have practical bearings, we conceive the object of our conception to have. Then, our conception of these effects is the whole of our conception of the object).

Notem bem o que o próprio Peirce tem a dizer acerca desse suposto “miolo de sua filosofia” numa carta enviada a William James (amigo e crítico de Peirce): “Desejo dizer que, apesar de tudo, o pragmatismo não resolve nenhum verdadeiro problema. Mostra apenas que pretensos problemas não são problemas reais. [...] não existe nada mais salutar do que deparar com problemas que ultrapassam nossa capacidade, o que proporciona, devo dizê-lo, a sensação deliciosa de ser embalados pelas águas sem fundo [...] parece-me que vocês todos têm uma sombra na retina mental que não deixa ver o que os outros veem e que tornaria o pragmatismo mais claro” (Collected Papers. 8.253).

Portanto, para quem já teve contato com a obra de Peirce, sabe que o “miolo da sua filosofia” não é a máxima pragmática, mas a formulação do “idealismo objetivo”, ou seja, de que as “ideias gerais” possuem estatuto metafísico, ou seja, o “realismo” (Peirce se dizia, nesse aspecto, "scotista" -- herdeiro do realismo medieval de Duns Scot) que se opõe diametralmente ao “nominalismo” e se expressa na sua “teoria do continuum” (mais informações: aqui).

Aliás, Peirce, num artigo para The Monist publicado em 1905, O que é pragmatismo, rejeita os “pragmatistas” William James, Ferdinand Schiller e Dewey por considerá-los “nominalistas” demais e popularizarem, de forma equivocada, o objetivo e a importância de sua “máxima”. Inclusiva, propõe mudar o nome de sua filosofia para “pragmaticismo” (Cf. Collected Papers 5. 414).

Numa carta a William James, diz Peirce: “Você [James] e Schiller levam o pragmatismo muito longe para o meu gosto [...]. A maior consequência do pragmatismo, de longe, e na qual tenho insistido sempre [...] é que nessa concepção da realidade temos de abandonar o nominalismo”.

A filosofia última de Peirce, seu núcleo duro e central, é o chamado “agapismo”: a retomada de um princípio cosmológico, isto é, uma “cosmogênese” do tipo neoplatônica via influência do panteísmo de Schelling (Peirce é confessadamente herdeiro do filósofo alemão). Recomendaria a leitura de Carl Hausman, um dos maiores estudiosos em Peirce, Charles S. Peirce's Evolutionary Philosophy (1993).

Eric Voegelin, em On the form of the American mind (p. 39-48), autor supostamente bem conhecido por Olavo de Carvalho, que até já deu cursos e escreveu textos sobre ele, no capítulo Time and Existence, traz uma exposição bem interessante a respeito do sistema filosófico de Peirce e William James. Assim, torna-se imperdoável para quem se diz conhecedor de Voegelin reduzir a filosofia de Peirce a frases aleatoriamente traduzidas e descontextualizadas do todo de sua obra monumental.

2. Numa entrevista em 2008, Olavo, de passagem, fala da paralaxe cognitiva e de Kant.  Vamos assumir a veracidade da chamada “paralaxe cognitiva”, que constitui “um capítulo adicional de crítica cultural” e se apresenta como um dos “elementos da filosofia de Olavo de Carvalho”.

Diz Olavo, denomina-se paralaxe cognitiva o “deslocamento, às vezes radical, entre o eixo da construção teórica de um pensador e o eixo da sua experiência humana real, tal como ele mesmo a relata ou tal como a conhecemos por outras fontes fidedignas”.

Segundo Olavo, esse “deslocamento começa a aparecer com frequência cada vez mais notável a partir do século XVI, dando a algumas das filosofias modernas a aparência cômica de gesticulações sonambúlicas totalmente alheias ao ambiente real em que se desenvolvem”. Seu exemplo de paralaxe cognitiva é a “teoria de Kant sobre a incognoscibilidade da ‘coisa em si’".

As críticas dirigidas ao problema da “coisa em si” (Ding an sich) de Kant remontam à primeira geração de idealistas alemães: Jacobi, Schulze e Reinhold. Chega na geração dos "clássicos" Fichte, Schelling e Hegel. Passa por Schopenhauer. E, na França, encontra as reações críticas do neo-kantiano Charles Renouvier, que … Continue Reading ››

Entrevista para O Camponês

Böklin

Pra quem ainda não leu, aqui está minha entrevista para o blog O Camponês em junho de 2014.

Francisco Razzo é Mestre em Filosofia pela PUC-SP, Graduado em Filosofia pela Faculdade de São Bento-SP. Como Gustavo Nogy e Martim Vasques da Cunha, já entrevistados pelo Camponês, Razzo também está escrevendo um livro a sair pela Record. O Camponês conhece Razzo ‘virtualmente’ já há alguns anos e acompanha desde há muto o seu blog. Razzo é polêmico e incisivo. Estudioso profundo, é um homem de fé e razão. Seus posts no facebook, cheios de dicas filosóficas, citações e indicações de autores e livros são replicados às centenas nas redes sociais. Suas palavras são lufadas de ar fresco nos ambientes embolorados e cheios de preguiça intelectual que a juventude brasileira respira nas últimas décadas  e sua coragem de pensar, não raras vezes, causa choques de realidade em muitos que caminham nas nuvens de um pensamento único e que já não conseguem cravar os pés no solo da realidade.

Aguardamos com ansiedade o seu livro e hoje lhe passamos a palavra. Com vocês,  Francisco Razzo.

Quais são, na sua opinião, as consequências de uma direita mais focada na militância do que no estudo?

Basicamente, uma única consequência: a de nos tornarmos um reflexo exato do que abominamos. Não há risco maior do que o de reproduzir os mesmos cacoetes dos nossos inimigos. Ser a imagem caricata refletida daquela; a fim de combater o que abominamos, no fundo terminar incorporando os vícios e trejeitos do que combatemos.

Explico. Se, em um primeiro momento, como direita concebemos a atitude de resistência a toda forma de ação revolucionária cuja característica principal reduz o todo da ação humana à militância política, então, a ideia de uma “militância” de direita só pode ser um contrassenso. O termo “militância” pode ter muitos significados, inclusive um significado teológico, mas, no geral, ele está relacionado ao uso clássico cooptado pela esquerda: militância se reduz a uma forma específica de práxis revolucionária dentro do universo ideológico originário tradicionalmente da esquerda hegeliana, a consequência lógica da inversão materialista em relação ao idealismo.

Às vezes, arrisco-me a pensar na militância revolucionária como completo esvaziamento secular do querígma cristão. Hoje é um termo gasto pelo uso e pelo desuso, por aqueles tontos que usam button dos ídolos Che e Mao e reproduzem o imaginário do que há de pior no mundo da política-ideológica: maoístas, trotskistas, leninistas, stalinistas e muitos outros adotaram o termo militância (veja a proliferação de movimentos revolucionários na segunda metade do século XX só na América Latina, algo realmente assombroso).

Sempre penso em “militância” como sinônimo de terrorismo: a justificação do uso da violência como forma de libertação. E quais as razões? Ora, pelo fato de “militância” trazer uma característica comum: a autoproclamação dos condutores do sentido da história. Acredito na busca do sentido da história como mistério absoluto. No entanto, o pressuposto básico do militante é: “nós desvendamos a dinâmica da história: eis a luta de classes! Eles, isto é, os alienados, precisam ser conduzidos.”

O militante luta contra um inimigo imaginário. Por isso, quando mata, não sente qualquer resquício de remorso; ao contrário, está possuído pelo entusiasmo diabólico de um ato heroico. Não dá para aceitar isso. Um militante é alguém cheio de si, de um otimismo repugnante. Na minha opinião, ser de direita, pelo menos como entendo e adoto esse termo, é resistir a esse tipo de tentação totalitária: “transformar o mundo segundo meu imaginário político.” Eu não consigo me ver como exemplo para ninguém, no máximo para os meus filhos e no mínimo para os meus alunos – mas como bom pai e bom professor. Só. Mais nada além disso. Eu jamais falo em nome da “direita” como um todo. Não pretendo ser representante de nenhum movimento.

Eu fiz uma opção pessoal: usar esse termo para demarcar um posicionamento distinto daquele de “esquerda”. A liberdade proposta pela militância de esquerda é, na minha opinião, a expressão pura de servilismo. A forma paradigmática da mentalidade de esquerda foi recentemente expressa por Vladimir Safatle no seu livro-manifesto A esquerda que não tema dizer seu nome: “a política é, em seu fundamento, a decisão a respeito do que será visto como inegociável. Ela não é simplesmente a arte da negociação e do consenso, mas a afirmação taxativa daquilo que não estamos dispostos a colocar na balança” (p.15). Uma direita focada na militância expressa exatamente esse tipo embaraçoso e violento de postura. Ser de direita é ir na contramão disso. Portanto, optar pelo estudo, a meu ver, é em última instância optar pela filosofia: a atitude de extrema oposição a toda forma de violência, como diria Eric Weil.

Você acredita que filósofos de verdade não têm posições político-ideológicas?

A discussão sobre a profunda relação entre o filósofo e o político foi herdada de Platão. Toda obra platônica é uma tentativa monumental de distinguir o verdadeiro filósofo do falso, o sofista. Em outras palavras, o filósofo seria genuinamente o político, enquanto o sofista estaria para o ideólogo. Embora Platão não faça uso do termo “ideólogo”, não exageramos na associação. Platão é enfático em atribuir aos sofistas o trabalho de produtores de representações fictícias ou imagens ilusórias, que em grego se diz, literalmente, phantastik?.

Duas obras de Platão são fundamentais para entender essa diferença: o Sofista e o Político. Os interpretes reconhecem no projeto de Platão a intenção de escrever um terceiro diálogo relacionado a esses dois: o Filósofo. A má compreensão do realismo platônico hoje em dia nos fez negligenciar o estudo do filósofo mais importante da história no que diz respeito à relação da vida filosófica com a vida política. É fácil cair na tentação de dizer: “o homem é a medida de todas coisas” e despencar para o interior da caverna, essa perfeita analogia … Continue Reading ››

Livros Essenciais para conhecer história da arte

Panofsky1. Erwin Panofsky. O significado das artes visuais. 

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Erwin Panofsky reúne neste volume uma coletânea de ensaios sobre teoria da arte, iconografia, estilos e atitude estética, em que sua visão estrutural e erudição procuram desvelar as artes visuais nas suas diferenças e significados profundos ligados ao estilo dos artistas e dos respectivos tempos.

conceitos-fundamentais-da-historia-da-arte-henrich-wolfflin-300x4122. Heinrich Wölfflin. Conceitos fundamentais da história da arte.

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Este estudo sobre a evolução do estilo na arte situa a obra no conjunto da vida de uma época. Através da análise das obras dos grandes artistas, de Dürer a Rembrandt, o autor mostra a evolução interna dos estilos e define as categorias permanentes da arte.

HistoriaArteGombrich_zps3dd5378d3. E. H. Gombrich. História da arte.

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'A história da arte' é um livro que busca introduzir o leitor ao mundo da arte, apresentando desde as pinturas rupestres da pré-história até a arte experimental contemporânea. O desenvolvimento da pintura e da escultura é tratado tendo como pano de fundo os sucessivos estilos de arquitetura. No livro, o autor descreve seu objetivo como sendo o de trazer alguma ordem compreensível à riqueza de nomes, períodos e estilos que preenchem as páginas.

Argan4. Giulio Carlo Argan. Arte moderna

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Arte moderna é um livro essencial para compreender o desenvolvimento da arte moderna. Argan tem um texto lúcido, ensaístico e muito esclarecedor. O livro traz 750 ilustrações e está muito bem editado. Vale cada centavo.

história da estética5. Raymond Bayer. História da estética

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Esta ''História da Estética'' transbordará, pois - como a própria estética o fez -, de um lado, para a filosofia e, do outro, para a história da arte. E isto parece tanto mais necessário e até inevitável quanto os valores estéticos não estão isolados; são função dos valores morais e até políticos.

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