A ideologia do corpo

1. “Considerado ‘sensual demais’, cartaz da Itaipava com Aline Riscado, a ‘Verão’, é suspenso”. Olha, vou ser sincero, cerveja ruim precisa apelar para esse tipo de retórica. Propaganda de cerveja ruim é igual a calendário de borracharia. Faz parte do imaginário popular brasileiro a necessidade de associar cerveja ruim com mulher bonita.

Não tem nada a ver com machismo, tem a ver com mau gosto e reflete a profunda falta de criatividade dos publicitários e da indústria da cerveja. Pense se cervejas como Paulaner, Franziskaner, Weihenstephaner, Leffe, Westvleteren e tantas de cerveja de qualidade precisam fazer isso. Não fazem.

O imaginário, ou valor simbólico, da cerveja de qualidade não precisa apelar para sensualismo vazio. Apela para sua tradição histórica. Geralmente monástica. A relação entre cerveja que respeita suas tradições e a mulher tem uma raiz histórica bem interessante: foi em plena Idade Média que a receita de cerveja com lúpulo foi produzida pela primeira vez. E foi uma mulher a grande responsável pela receita: Santa Hildegard von Bingen. Contam que Santa Brígida teria miraculosamente transformado água em cerveja, para que os seus visitantes clericais tivessem algo para beber.

2. Usar, sensualmente, para fazer propaganda de cerveja significa reduzir a mulher a um mero objeto. “Feministas de todo mundo – uni-vos contra esse absurdo da sociedade machista”. Agora, usar o corpo, agressivamente, para atacar o sentimento religioso de milhares de pessoas (principalmente das senhorinhas em procissão) é a forma mais pura de liberdade, autonomia e expressão. “Meu corpo, minhas regras. Sexo anal contra o capital”.

O problema da instrumentalização do corpo, para vender cerveja ruim ou impor ideologia barata, é o apelo mais fácil quando nos falta a qualidade, tanto em relação à bebida quanto em relação aos argumentos. O apelo ao sensualismo na publicidade ou ao instrumento ideológico na política do corpo parte de uma inadequada concepção antropológica. Feministas, em geral, e com certa razão, são contra a objetivação e a exploração do corpo da mulher.

No entanto, elas não oferecem uma compreensão adequada da sexualidade humana, sobretudo no que diz respeito à gênese histórica dessa objetivação. Entendem que o cristianismo, por meio do poder da Igreja, transformou a mulher em uma entidade submissa cuja única função social seria a estar moral e sexualmente submissa ao homem.

A antropologia cristã, defendida pela Igreja Católica e expressa no Catecismo, traz uma rica visão sobre o corpo que resiste ao mecanismo vulgar da instrumentalização publicitária e ideológica:

“A sexualidade, na qual se exprime a pertença do homem ao mundo CORPORAL e BIOLÓGICO, torna-se pessoal e verdadeiramente humana quando é integrada na RELAÇÃO DE PESSOA PARA PESSOA, na doação mútua integral e temporalmente ilimitada do homem e da mulher”; e, a partir disso, faz um grande apelo à virtude da castidade, que significa, fundamentalmente, “a integridade da pessoa e a integralidade da doação”, ou seja, “a integração da sexualidade na pessoa” que inclui a aprendizagem do domínio pessoal.”